quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Jogo duplo

René Magritte



Apertou o papel na mão fechada até sentir que os vincos lhe magoavam a carne e só quando se assegurou de que ninguém a olhava ou percebera o seu gesto, se atreveu a lê-lo. «Estarei no bar Gabriel e os Anjos hoje às 11 horas. Se fores capaz de me identificar, serei teu esta noite. Leva as asas para voarmos juntos». Só isto, nada mais no pedaço de papel cuidadosamente dobrado que encontrara ali, entalado na almofada daquela cadeira anónima da pastelaria onde ia cada manhã.
Era uma daquelas mulheres discretas, cuja beleza jamais se revela ao primeiro olhar. Uma daquelas belezas escondidas e reservadas, terreno conquistado e colonizado pelo companheiro de muitos anos. Um daqueles casos em que a beleza dos começos se perde irremediavelmente, da mesma forma inevitável que as rugas substituem a macieza da pele ou os cabelos brancos roubam o brilho ao cabelo com que atravessamos metade da vida. Esta mulher estava no ponto exacto em que tais efeitos se tornam uma realidade inescapável. Sem ter consciência disso, estava num lugar de fronteira, balouçava na linha invisível que separa redenção e perda – lugares tão difusos e cambiantes que raramente temos a certeza de qual o lado da fronteira que cabe a um e a outro.
Ela, que sempre fora fiel e feliz com o amor que escolhera, escondeu o papel entre as mãos unidas e levou-as à altura do peito quase com ternura. Demorou alguns segundos aquele pasmo melancólico. Quase de imediato se sentiu ridícula e desabou numa gargalhada nervosa. Como pudera pensar, sequer por momentos, que aquele convite lhe era dirigido? Sabia que havia gente que se divertia assim. Pelo menos imaginava que pudesse haver. Um papel sem destinatário e sem verdadeiro conteúdo! Sempre gostaria de saber o que sucederia se alguém respondesse ao convite. E se ela o fizesse? Encontraria alguém rindo-se da situação? De novo se sentiu ridícula por ponderar sequer semelhante hipótese. Afinal, talvez o papel estivesse ali há dias, há semanas… Não, isso não, estava certa que não. Ontem mesmo estivera sentada naquela cadeira e conhecia bem aquele gesto, quase vício, de entalar a mão na dobra das almofadas. E se o papel fosse realmente para ela? Olhou à volta de forma mais atenta e comprometida. Àquela hora a pastelaria estava quase vazia e só os olhinhos míopes de uma gorda decotada pareciam olhá-la com interesse.
Quando no fim do dia chegou a casa, o papel estava guardado no bolso das calças, ainda tão cuidadosamente dobrado como quando o encontrara. Não o esquecera todo o dia, embora a si mesmo assegurasse que sim. Ao debruçar-se sobre o marido em busca do beijo rotineiro, colocou-lhe a mão no ombro e fez desse gesto o compromisso de esquecer toda aquela loucura inconsequente. Aquele seria um serão como todos os outros mansos serões habituais. Ou não, melhor fazer diferente. Dar-lhe o jeito de uma comemoração ou de um ritual. Porque não cozinhar para ele? Há quanto tempo o não fazia! Substituiria a falta de talento pela devoção e faria dela uma prova de afecto, testemunho inquebrantável do apaziguamento que já sentia. Levantou-se decidida e foi completamente involuntário o gesto que lhe levou a mão ao bolso. Sentiu o papel como uma brasa queimando-lhe os dedos. Nenhuma dor, mas uma espécie de chama branda e convidativa que lhe foi subindo pelo braço e se apossou do seu corpo.
«Vou ter que sair mais logo. Uma reunião inesperada. Acho que não consigo voltar cedo». Disse aquilo mas foi como se outra pessoa o tivesse dito com a sua voz. Estranha sensação de alívio e de medo, bizarra mistura que nunca experimentara. Longe do marido, sentido o coração cavalgando desembestado, voltou a ler o papel. Quanto não daria para de novo sentir o ridículo que sentira antes. Um ridículo profundo que a levasse a desdizer-se, «Afinal a reunião foi desmarcada. Fico contigo».
Saiu tensa e apressada, evitando o olhar do marido. Verdadeira executiva a caminho de uma reunião, ar duro e determinado, sem nenhuma maquilhagem que lhe disfarçasse o cansaço. Num saco discreto mas inesperado levava uma saia mais curta e umas meias de rede. Não tinha já memória da última vez as usara. Habituada a gerir uma agenda carregada, calculou tudo com precisão. Uma passagem rápida pelo ginásio fez dela outra mulher. Descobriu com surpresa que o seu corpo guardava ainda a virtude da sedução. Eram as mesmas formas, apenas o tempo as enquistara sem que ele alguma vez o percebesse. Gostou da sensação de reencontrar a mulher que fora. O sorriso denunciava a alegria da descoberta de uma parte esquecida de si.
Entrou no bar às onze horas. Fez questão desse rigor quase maníaco que a tornara notada na empresa. Empurrava-a a vontade de acabar com tudo aquilo rapidamente, rejeitando, ao mesmo tempo, a responsabilidade de algum eventual equívoco. Se o convite era para as onze horas, ali estava ela, disposta a procurar de peito aberto quem a convidara. As cartas estavam na mesa e se havia jogo ela queria jogá-lo até ao fim. Não precisou procurar muito. Ali estava ele, numa mesa de canto, debaixo de um espelho oval emoldurado em talha dourada. Em momento algum hesitou ou teve dúvida. A forma como os olhares se cruzaram revelou que também ele percebera o acordo e que as palavras eram dispensáveis.
Amaram-se no motel mais próximo e as palavras apenas rebentaram no momento em que os dois corpos se fundiram e abrasaram. Havia em tudo aquilo uma pressa furiosa, um tesão que parecia ter ficado guardado durante anos e agora ansiava por ser consumido numa chama súbita e deslumbrante. Ficaram calados depois. O corpo do homem ofegante sobre o dela, os dedos entrelaçados de encontro às coxas tensas, que relaxavam com espasmos súbitos e incontrolados. Mais tarde saíram do motel separados, cada um voltando devagar à vida serena a que estavam habituados. Haviam de se encontrar em casa e, então sim, trocariam as palavras banais que sempre usavam para planificar o dia seguinte.

sábado, 18 de outubro de 2008

Com balões e pipocas nos trocam as voltas...




Vivemos tempos estranhos. Não o digo apenas pela crise financeira ou pelos tresloucados actos que a ela conduziram. Digo-o por tudo o que nos vai cercando e conduzindo a nossa vida. Como se fosse uma segunda pele, vestimo-nos com esta capa feita de sedução e conforto, apegamo-nos a ela como se não a pudéssemos largar e por aí vamos, tão felizes quanto ligeiros, caminho de algum buraco ou abismo que adiante nos espera. Bem sei que sendo tantos os convertidos não há buraco ou abismo que nos engula. Não caberíamos nele!
Seja como for, as circunstâncias actuais levam já os prudentes a apontar o dedo e a fazer notar que talvez a capa não seja de arminho ou, se o é, talvez não tenhamos condições para verdadeiramente a ela nos enrolarmos. Dito de outra forma, deve ser hora de reajustarmos a relação entre necessidades e desejos. A ideia que foi motor fiel da nossa vida desde o final da Guerra parece ter-se esgotado. Consumir mais, sempre mais, inventar continuamente novas e imperiosas necessidades, embarcar num contínuo crescimento económico, vender a todos férias tropicais e automóveis topo de gama, esse sonho pueril de criança mimada, se não acabou de vez levou um forte abanão. Cá estaremos todos para ver que novos sonhos inventarão para nós. Sim, porque este balão que de repente esvaziou há-de de novo ser enchido para nosso deleite e paz de alma.
Apesar de apenas gostar medianamente de crianças, interessa-me o que é pueril. É um interesse casto, garanto. Uma espécie de olhar cínico para todos nós. Desta vez - nem sempre foi assim na longa história do Homem - deram-nos a volta fazendo de nós eternas crianças. Foi esse o ar com que enchemos o balão. Lembram-se daquela velha história, que Lucas nos conta no Evangelho, da tentação de Jesus pelo Diabo? «Dar-te-ei todo este poder e a sua glória (...) Se tu me adorares tudo será teu». Acho que foi mais ou menos isso que nos sucedeu. Só que Jesus era teso e disse logo, de dedo em riste, «Vai-te Satanás!», enquanto nós, que somos moles e tendencialmente obesos, aceitámos a dádiva. E assim passámos a vestir Prada, Gucci e Doce&Banana ou lá como se chama. Enfim, a consumir cada vez mais como se disso dependesse a própria vida e não pudesse haver felicidade se não dessa forma.
Tudo isto que convosco desabafo foi despoletado, imaginem só, por essa mania indizível de devorar baldes de pipocas no cinema. É apenas uma metáfora, de acordo, mas é uma boa metáfora para essa infantilização que tomou conta das nossas vidas. Homens barbados e pais de filhos, mulheres decididas e independentes, rilhando pipocas furiosamente para desconforto de quem só foi ver cinema, não pode ser normal. Ir ao cinema para pensar? Para entrar num universo imaginado por outra pessoa? Para se descobrir nas personagens que evoluem no ecrã? Nada disso, meu parvo! Tens é que levar um balde de pipocas e outro de Coca-Cola, comprar os produtos alusivos ao filme e sair como entraste: como um desejo furioso de puxar do cartão de crédito e comprar o primeiro sonho que se atravessar no teu caminho. E olhem que a metáfora é mesmo boa, pois de pipoca em pipoca, com aqueles baldes tamanho XL, já não há quem chegue ao fim e essa é a nossa situação actual: gordos como estamos não cabemos no abismo que se abre à nossa frente e ficamos entalados, exactamente como a mão papuda que procura chegar ao final do balde não por vontade mas por vício.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Praxe Revisitada

Edvard Munch


No ano passado escrevi sobre a praxe e agora que ela nos revisita com a exuberância costumeira, decidi voltar ao tema. Do que escrevi no ano passado - e que está aí abaixo blogado para quem tiver nisso alguma curiosidade – não retiraria nada de essencial. Assim sendo, perguntarão, porquê voltar à questão? Por duas razões fundamentais.
Em primeiro lugar por um impulso pedagógico, vício d’ofício, se quiserem. Quando os pedagogos eram um pouco menos pedabobos, costumava dizer-se que a repetição era a mãe de toda a pedagogia! Pois então aí está a primeira razão: repetir cansa, mas mesmo que efeito não tenha, alivia quem repete.
A segunda razão é de outra natureza. Prende-se com uma ideia que circula e vai fazendo caminho: «Este ano a praxe está diferente!» Para os defensores desta tese, a diferença notar-se ia numa maior brandura e tolerância e num vozeado menos parvo e grosseiro. Um novo caminho que se abre; um amanhã que canta; uma academia mais academia desponta, tímida mas segura, no meio do tumulto. Não são poucos os subscritores destas ideias, o que se calhar nem é mau, pois gente de fé é o que mais falta nos faz nos dias que vão correndo. Já vi títulos de jornal garantindo a mudança e tenho colegas que a asseveram com toda a seriedade e convicção. Até a reitoria contribuiu para o jubiloso clima quando, finalmente, se decidiu a mexer uma palha – foi só uma palhinha, é verdade, mas mexeu-a!
Para ser justo, devo reconhecer que eu próprio tenho ouvido menos urros e uivos, talvez menos palavrões e alarvidades. Ora, mais palavrão menos palavrão, o que é que isso vem a ser para as sólidas gentes do norte?! Fosse eu poeta ou intelectual metido a besta e faria a pergunta sacramental: «Não estaremos nós a tomar a nuvem por Juno?». Ou então, para gente menos versada em mitologia clássica, será que não são demasiados foguetes para tão pouca festa? Certo é que a reitoria fez peito: não tolera abusos e faz de cada homem e mulher, docente ou funcionário, impolutos vigilantes das regras (mas que regras?) que devem reger a praxe. Desconheço se ouve denúncia de abusos e, se as houve, que consequências terão. É razoável pensar que poucas ou nenhumas. Mas em verdade vos digo que esse nem é o ponto essencial.
Nada do que verdadeiramente conta mudou na praxe. A sua estética continua a ser exactamente a mesma e deve aqui ficar claro que ela é em si mesmo irreformável. Extinguir a lógica de submissão cega e acrítica que formata a praxe significaria, como é bom de ver, matar aquele ritual circense de enxovalho tal como o conhecemos. É verdade que os tempos correm favoráveis a essa estética sinistra, do mesmo modo que tempos houve em o sentido dominante era o contrário. Já se sabe, mudam-se os tempos…
A praxe é um reflexo de todos nós e do modo como aceitamos viver, mas é também uma lição e um ensinamento. Provavelmente uma lição mais poderosa e duradoura do que todas quantas nós consigamos transmitir aos nossos alunos. Uma lição que pode sintetizar-se no belo título que Fassbinder escolheu para um filme: «O Direito do Mais Forte à Liberdade». É ou não é esse o princípio fundamental para uma vida cordata e de sucesso? Aprender a obedecer… e aproveitar para mandar sempre que a ocasião se proporcione. Não importa em quem mandamos nem porque o fazemos; o que importa é o poder do mando e a vertigem de ser obedecido. Por isso a praxe não é um caso de polícia, é muito mais do que isso. E já que falei de cinema com outro filme acabo. Falo de Bergman e d’«O Ovo da Serpente», obra que nos mostra como o essencial do terrível mal que viria a ser o nazismo se mostrava já, muito anos antes, de uma forma tão mansa que quase parecia benigna. Talvez seja isso que anda por aí à solta, não só na praxe, bem entendido, mas em tantas coisas que vemos disfarçadas e escondidas pela fina membrana de um ovo em gestação.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Maravilhas do mundo animal: o orgasmo feminino

Gustav Klimt


É um daqueles fantásticos mistérios que transcendem a simplicidade da alma masculina. Pelo menos da minha, e por isso vos peço, eventuais leitores, que me ajudem nesta demanda. De onde vem aquela energia toda que tanto faz estremecer a mais santa como a mais puta das mulheres? Bom, vendo bem, desta questão particular nem há muito a dizer. É um daqueles mistérios que pode muito bem continuar misterioso – ainda que seja pena não se encontrar maneira de usar tamanha energia para esbater a actual crise dos combustíveis.
Há outras questões, porém, que merecem reflexão. A do tempo, por exemplo. Porque haverá mulheres que parecem tropeçar no orgasmo e outras nunca encontram o caminho? Porque existirão tantas variações - de ordem quantitativa e qualitativa - entre os sinais que o anunciam e a sua plena manifestação? Porque são tão variáveis (e às vezes imprevisíveis…) os efeitos secundários do orgasmo - riso nervoso ou destrambelhado, choro tímido ou convulso, fome súbita ou perda de apetite? Tantas perguntas, tão poucas respostas!
Mas no fundo talvez tudo isto sejam coisas lá com elas e o melhor que temos a fazer é concentrarmo-nos naquilo que é de gajo! Ou seja, coisas práticas. O que devemos nós fazer naquele entretanto que vai do anúncio à magnifica explosão? Já se sabe que devemos aguentar a “pé” firme para que a simultaneidade exponencie os efeitos da combustão interna. Ora, o que sucede é que isso nem sempre é fácil. Há truques, bem sei, mas quantas vezes não resultam deles mal-entendidos?! Eu, numa ocasião, decidi bater palmas. Pareceu-me adequado: marcava o ritmo e servia como estímulo, assim à maneira de uma claque. Agora vejam, tratando-se de mulheres, pode um gajo ter boas intenções? Quase nunca! Pois é, já adivinharam: a bela não achou graça e deu-me dois formidáveis murros no plexo solar. A falta de ar foi o de menos. Pior foi a súbito minguamento do que estava em ponto de rebuçado, mas, valha a verdade, esse desagradável efeito secundário também a ela custou!
Dir-me-ão que de tais acidentes sempre resultam valiosas lições. Não estejam, porém, tão seguros, pois tratando-se de mulheres nunca se sabe. Querem provas? Então aí vai. Em ocasião posterior, e como a coisa tardasse mais que o desejado, dei por mim trauteando o hino da Maria da Fonte. Um pouco a medo no começo, é certo, mas a verdade é que quando cheguei aquela parte que diz «… com as pistolas na mão / para matar os Cabrais / que são falsos à Nação», nem vos conto! A dama ficou mais tola do que era costume e tudo acabou numa pura explosão de pirotecnia chinesa que nem na abertura dos Jogos Olímpicos!
É o que digo: um mistério dos grandes! Mas quem não gosta de um bom mistério? Eu gosto, e gosto tanto deste que procurei até documentar-me. Como as mulheres me acham um tanto destravado e pouco de fiar, raras vezes entram em minúcias comigo, mas vejam as confissões de umas destas fascinantes criaturas do mundo natural:

Preparo-me para os orgasmos como se me preparasse para cozer pão. Primeiro, limpo o mármore. Depois, tiro minuciosamente todos os utensílios que vou utilizar. O meu corpo é a massa. Trabalho-o com as mãos como se fosse pasta. Atiro-o ao ar e espero que caia nos meus braços como um amante. Recorro à analogia dos fogos artificiais para descrever os meus orgasmos, porque cada um é diferente e uma vez começado, nunca posso prever o resultado. Alguns começam com um grande estalido, mas desvanecem-se. E outros começam como pólvora molhada, mas de repente, no alto do céu, precisamente quando julgas que se perderam, rebentam no chapéu de chuva mais brilhante. Frequentemente os orgasmos jogam às escondidas, como as chaves que oiço, mas não consigo encontrar, no fundo do bolso. Quando me custa chegar ao orgasmo, parece-me estar numa auto-estrada metido num grande engarrafamento de trânsito. Sinto-me sempre ávida depois de um orgasmo, talvez porque nunca me supera totalmente (…) antes de chegar à meia-idade, senti um interesse estético pelos orgasmos. Às vezes planeio os meus orgasmos como se fossem uma competição atlética. O meu orgasmo final é sempre como um reflexão a posteriori, porque nunca sei quando retirar-me. Penso que a frase”deverias saber quando retirar-te” foi inventada por alguém que sabia exactamente em que orgasmo parar. Penso que nalgum lugar do mundo deve existir um quarto escuro com um letreiro na porta que diz: “Orgasmos perdidos”, onde estão todos os orgasmos que deveria ter tido.
Daphne Slade, La forma de la sensación.

Como se fosse cozer pão? Alguns começam com um estalido? Como se fossem uma competição atlética? Nada disto vos parece estranho? Falo convosco, eventuais gajos que por aqui passem, já que ao mulherio tudo isto deve ser a coisa mais natural do mundo! E que dizer da ideia que alguns orgasmos são como pólvora molhada? Humidade convém que haja, mas pólvora parece-me doidice. Enfim, coisa de gaja e do maravilhoso mundo animal. O que importa saber é se há por aí alguém capaz de ajudar. Please?

sábado, 20 de setembro de 2008

Rock Hotel

Egon Schiele


O teu corpo desenhado no lençol por sopros de luz. Centelhas dóceis, rendidas à perfeição da forma, entravam pelas frestas da persiana corrida e eram línguas de fogo viajando a uma velocidade tão assombrosa como a tua beleza. Trezentos mil quilómetros por segundo, uma tão espantosa velocidade que apagava todo o espaço. Tu e a luz negando o vazio, aliados improváveis mas irrepreensíveis. Seria por isso que enchias o quarto e o meu espanto. Posso jurar que não precisava olhar para te ver. Estavas em toda a parte. No espelho que nos reflectiu enquanto nos amávamos, na almofada a que dormiste abraçada e que agora jazia a meus pés, até mesmo na cadeira em que me sentava, sobreposta a mim, parte maior de mim. Estavas também na janela ainda fechada, transbordavas para fora do quarto, para a cidade sempre agitada que nem sequer imaginava que nós dois existíamos e nos amávamos naquele quarto de hotel a que já nos tínhamos habituado. Gosto de olhar-te assim pela manhã. Acompanhar os primeiros raios de sol assomando nas frinchas mais altas da persiana. Como são lentos esses farrapos de luz. Tantos quilómetros por segundo e tanta lentidão. Estou certo de que a luz admira o teu corpo tanto quanto eu o admiro e é por isso que nega a sua natureza e se torna lenta, percorrendo com mansidão cada centímetro da tua pele. Tantos mil quilómetros por segundo e a luz parando ali como se não houvesse tempo. E também eu fico preso na mesma teia, cúmplice do sol matinal, enredado na teia que ele estende como um véu que a pouco e pouco te vai cobrindo. A quantos quilómetros por segundo chega o orgasmo? Não falo do seu anúncio, que esse manifesta-se em sinais claros e que aprendi a ler. Aprendi o significado de cada contracção do teu rosto, do caminho que as tuas mãos percorrem, quando abandonam o meu corpo e se concentram no teu. Indícios tão claros como os alvores rosáceos pressagiando um dia de calor. Pressinto o teu orgasmo antes que tu o traduzas em palavras ou em gemidos. Talvez de tanto te amar o pressinta mesmo antes de ti. Mas do que falo não é desse caminho que o orgasmo faz das entranhas para a alma. Do modo como vem desde um lugar fundo, de um subterrâneo aberto desde a raiz do próprio tempo, deste nosso tempo de homens que a luz atravessa a trezentos mil quilómetros por segundo. Falo de outra coisa. Falo da velocidade com que ele te abala o corpo, de como te percorre toda inteira: inteiriça como um animal mergulhado no prazer e no vício. Bem sei que ele dura depois nas suas consequências, se prolonga em espasmos e convulsões, deliciosos efeitos secundários. Mas ou não há um momento preciso, exacto, condensado numa tensão de um nanosegundo? Espécie de flash viajando a quinhentos mil quilómetros por segundo, negando na sua exuberância as próprias leis da física. Falei-te nisso e tu riste como só tu sabes rir. E eu ri-me contigo, e rebolamos juntos na cama desfeita, os lençóis enrodilhados deixando ver o colchão azul, enorme e quadrado que não conhecia norte nem sul. Colchão-arena, tapete voador dos amantes, corpo-delito a que sempre voltávamos com a complacência do gerente. Hotel Dublin, local de eternas núpcias, achava eu antes mesmo de te perder para outros abraços.






A última vez que entrelaçamos os dedos. A derradeira carícia que se imprimiu em mim de forma tão profunda que ainda hoje sinto, dedo a dedo, a tua mão entre as minhas. Fiz batota, acho que fiz batota. Só eu sabia que aquela seria a despedida e pude, por isso, guardar para mim o teu calor. Que sentirás tu hoje, tantos anos passados? Serei na tua memória um esquecimento? Não sei sequer se o teu ódio por mim foi uma ferida purulenta ou uma mazela sem importância. Sobreviverei em ti como uma cicatriz? As vezes que voltei ao Hotel Dublin carregando comigo estas folhas em que escrevo como se te levasse comigo, como se tivesse sido possível ter-te transformado em palavras. O amor está na cabeça e nas palavras que dizemos. Se isto fosse uma carta, se acaso o pudesse ser, perguntar-te-ia se ainda te lembras de como acreditávamos nesta ideia tão simples e de como buscávamos palavras novas e nos enternecíamos e surpreendíamos nelas. Era um jogo, bem sei, mas não percebi que o devíamos ter guardado só para nós. Ah, a minha alma de artista apenas se alimenta do universal! Como podia eu sufocar de amor e deixar-te sufocar a ti se o mundo inteiro me esperava e te esperava. E todavia, quanto eu não daria para te ver interpretar uma peça minha. Esse prazer simples das minhas palavras na tua boca. As minhas palavras misturadas com a tua saliva, formando-se no profundo erotismo de lábios, língua e dentes movendo-se na tua boca. Teria bastado mas quem o podia saber naqueles vagos anos de entusiasmo e presunção. E depois surgiu ele. Mentira: sempre esteve ali, na sombra, esperando o momento. Janus, face luminosa de amizade disponível escondendo a outra, a paciente face do caçador que espera a fragilidade da vítima para sobre ela se abater. Estou a ser injusto? Descobriste nele qual das faces? Pode ele iluminar-te como eu te iluminei? Antes te sufocou de tal forma que nem esse sufoco imenso percebes. E no entanto devias percebê-lo. Logo tu, a mais certeira das apostas do Rock! Sobraram uns quantos cartazes desbotando entristecidos no seu gabinete-quarto-sala de exposições-antro de visitas-caverna de assombrações e de fantasmas. «Rock Hotel! Fantasmotel! Não perca, entre no Rock e sufoque!».

segunda-feira, 31 de março de 2008

Identidades desfocadas

Paula Rego

Certificou-se primeiro da regularidade da respiração do homem e de que aquele ressonar fino e sibilante correspondia a um sono real, não sendo um artifício destinado a apanhá-la em flagrante. Quando se sentiu segura pegou nas calças que estavam dobradas numa cadeira e levou-as até aos pés da cama, para o único lugar iluminado por três estreitas frinchas abertas no estore. Não se sentia bem a fazer aquilo, mas considerava indispensável tomar aquela providência para evitar males maiores. Os segredos de um homem são a nossa condenação, murmurava baixinho, enquanto arrastava os pés, que se escondiam dentro de uns enormes chinelos peludos de fantasia.
Tirou primeiro uma carteira de cabedal castanho e arrumou-a cuidadosamente sobre a colcha branca, de tal forma que as suas linhas coincidissem rigorosamente com os feixes de luz que entravam pela janela. Meteu a mão mais fundo no bolso e encontrou o que parecia um pedaço de plástico. Procurando amarrotá-lo o menos possível, prendeu-o entre os dedos indicador e anelar, e foi desse forma que o retirou e elevou até à altura dos olhos. Estes eram pequeninos e míopes, mas o seu azul pálido faiscou quando percebeu o que tinha na mão. Era, sem dúvida, o invólucro vazio de um preservativo. Levou-o ao nariz, como se assim pudesse provar alguma coisa, e depois introduziu um dedo no rasgão e sentiu como o interior estava ainda gomoso do lubrificante. Apeteceu-lhe acordar o homem aos safanões e aos gritos e confrontá-lo com aquela prova insofismável da sua falta.
Nunca saberemos se o teria feito ou se daquela vez conteria a fúria, porque ao virar-se bruscamente na cama, o homem expôs o rosto, até aí semi-escondido entre as almofadas. A mulher sorriu. Como pudera cometer tamanho engano?! Via agora claramente que aquele não era o seu marido. Quem ali dormia, sonhando talvez com ela, era, afinal, o seu amante. Tudo se explicava e encaixava da forma que ela tanto gostava. Fora com ela que aquele preservativo fora usado. Lembrava-se bem do cheiro acre a gasolina e a napa dos estofos do velho Ford Escort. Via ainda os vidros embaciados e o modo como ele, mal contendo o desejo, rasgou com os dentes aquele invólucro que agora reencontrara.
Depois de colocar o pedacinho de plástico em perfeita simetria com a carteira e de confirmar a coincidência com os rectangulozinhos de luz, a mulher atravessou o quarto para olhar o homem de um ângulo mais favorável e voltou sorrindo para a sua tarefa. Abriu a carteira e o seu conteúdo pareceu crescer logo que a mola se soltou. Havia talões bancários e uns papéis amarelos com números de telefone anotados apressadamente. Foi tirando os cartões coloridos que espalhou metodicamente à sua frente. Abriu uma divisória plástica e descobriu algumas fotos. Em lugar de destaque estava a de uma mulher jovem e bonita. Poderia ser ela? Talvez sim, mas seguramente mais nova. Identificava os olhos azuis, mas não se lembrava de alguma vez ter usado aquele vestido preto, tão justo que revelava todas as formas de quem o vestia. As outras fotografias não a ajudaram. Mostravam duas crianças loiras e sorridentes, mas ela sabia que o seu amante não tinha filhos, ou pelo menos assim pensava. A última fotografia do conjunto surpreendeu-a. Era o seu marido, sem dúvida. Era dele aquele ar cansado e infeliz, a sombra que se pusera no seu olhar desde que ela adoecera. Como era aquilo possível?! Que sórdidos laços podiam unir aqueles dois homens da sua vida?
A respiração do homem tinha-se tornado mais pesada, acompanhando o ressonar mais audível. De repente pareceu ficar sem ar e o corpo sacudiu-se e agitou-se até recuperar o ritmo sereno de um sono profundo. A mulher voltou a olhá-lo, agora de um novo ângulo. Como fora possível?! Como pudera ela enganar-se uma segunda vez?! Fechou os olhos apertando as pálpebras, numa acusação surda àquela desagradável miopia. Agora não tinha qualquer dúvida: o homem que dormia à sua frente era o seu filho. Afinal tudo se explicava a contento. Os devaneios da juventude, ora, como se ela não soubesse o que isso era! Era importante, todavia, ficar atenta. Obrigação de mãe que estima os filhos e para eles procura o melhor. Foi por isso que se aproximou de novo da cadeira, desta vez para pegar no casaco. Sabe Deus o que um filho é capaz de esconder da mãe! Nunca as cautelas foram de mais em situações como esta.
Mal a mulher começara a inspecção dos bolsos interiores do casaco, a porta abriu-se e uma segunda mulher entrou. Pegou no braço da outra e só no corredor, após fechar a porta, lhe deu a justificada reprimenda.
- Parece impossível, Dona Lucinda. Esta mania de entrar no quarto dos hóspedes tem que acabar! Não posso deixá-la um só momento sozinha? O que diria o seu falecido marido se a visse fazer estes disparates? Volte lá para o seu quarto, e à próxima escapadela tranco-a a sete chaves. Vai ver!

quinta-feira, 20 de março de 2008

O golpe

Julian Freud


Era um objecto pesado e frio, anguloso no seu vidro fosco raiado a azul. Os quatro rasgões na sua superfície tinham marcas já antigas e irremovíveis dos incontáveis cigarros que neles tinham repousado. Na base, imperceptível a um primeiro olhar, o cinzeiro apresentava uma mossa, como que um quinto rasgão, mas este irregular, sem forma definida. Vestígio de uma pancada ou queda que deixara o vidro esfacelado e cortante naquele ponto exacto.
O cinzeiro estava vazio e limpo, quase brilhando na débil luz daquele começo de manhã. Ele estendeu a mão e como se quisesse tomar-lhe o peso faz balouçar o braço direito, sentindo o vidro polido na aspereza da mão aberta. Encolheu o dedo indicador e fê-lo coincidir com o oco, sentindo aquela textura irregular em contraste com a restante superfície, que era lisa e tão polida que chegava a colar-se à sua pele quente e um pouco húmida. O oco parecia feito à medida. O seu dedo assentava naquele buraco de forma tão perfeita que parecia ter sido feito exactamente para esse efeito. Como se fosse um gatilho.
Mantendo o objecto preso entre os dedos, o homem fechou os olhos. Os lábios finos, sombreados pela barba que despontava forte, esboçaram um trejeito de sorriso. Apenas uma insinuação de felicidade, como se a sua mente tivesse sido despertada por um desejo ou uma memória. Imaginou que fora um crime hediondo e desnecessário que provocara aquela mossa no cinzeiro. Fez um esforço para visualizar o objecto manchando de sangue o chão da cozinha e imaginou-se a si mesmo agoniado, incapaz de despegar os olhos da sombra vermelha, que escorria lentamente, arrastando consigo uma mecha de cabelos loiros.
Quando voltou a abrir os olhos, o homem ergueu o cinzeiro e apontou-o ao sol que despontava no horizonte distante. Fez com que o reflexo brilhasse na parede e depois, recordando uma brincadeira que fizera muitas vezes enquanto criança, moveu aquele clarão com rapidez ao longo da parede vazia.
Levantou-se depois desajeitadamente, como se exagerasse a dificuldade desse acto tão simples. Cambaleou um pouco às primeiras passadas e acabou por tropeçar numa garrafa vazia que se escondia entre vagas peças de roupa que se espalhavam no percurso. Quando recuperou o equilíbrio dirigiu-se à cozinha, sempre agarrando o cinzeiro na mão tensa. A mulher estava encostada ao lava-loiças como se tencionasse servir-se dele, mas sem fazer qualquer movimento. Os braços nus pendiam-lhe molemente, enquanto os dedos da mão esquerda se entretinham com as pregas da toalha em que se enrolara. A cabeça estava baixa, deixando ver a nuca magra e ossuda, e os cabelos loiros caiam-lhe nos ombros numa simetria quase perfeita. Ela percebeu que o homem se aproximava mas não se virou. Foi então que sentiu a pancada seca e certeira que a matou. A segunda pancada que se ouviu naquela manhã foi a do cinzeiro caindo no chão da cozinha. Estava manchado se sangue e na mossa irregular onde o homem descansara o dedo estava agora um coágulo acinzentado a que se agarrara ainda um punhado de finos cabelos loiros.