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segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Apanhado a fumar!

Rick Castro


Este post marca uma novidade absoluta neste blog! OK, é verdade que pela primeira vez aparece aqui um homem nu, mas não é essa a novidade absoluta a que me refiro. Trata-se antes de uma questão técnica. Sempre, até hoje, tenho partido da escrita, sendo em função dela que a imagem se revela, surgindo, assim, como ilustração mais ou menos evocativa do que foi escrito. Desta vez segui o procedimento inverso: foi a foto que acompanha este texto e o título que Rick Castro lhe deu que motivaram estas linhas.
«Apanhado a fumar», declara o autor! Existe na foto uma evidente vontade de provocar e de se servir do humor para piscar o olho a quem observa. Porém, o que mais me interessa nesta foto é o que ela sugere acerca das ideias de transgressão e de castigo. A ambiguidade destes dois vectores é por demais evidente: a transgressão não é para levar a sério e o castigo contém em si mesmo uma forte sugestão de prazer, sendo que é nesta sugestão que está contida, verdadeiramente, a dimensão transgressiva. Tudo se reduz, portanto, a uma encenação feita a partir de um conteúdo narrativo conhecido e que o autor reescreve. Sei que esta é apenas uma interpretação entre outras possíveis, mas foi essa a leitura que conduziu o meu olhar e também é ela que orientará o meu argumento.
A provocação, pois também aqui é de uma provocação que se trata, é a de sugerir que olhemos para os afectos reais a partir desta matriz cénica. A hipótese de partida é a de que hoje em dia tende a afirmar-se um regime afectivo em que a neutralização da transgressão se faz recorrendo a uma transgressão maior. Consideremos uma transgressão banal aos convénios matrimoniais ou para-matrimoniais como é o adultério. Em torno dele existe um conjunto de narrativas conhecidas e mais ou menos cristalizadas, as quais enfatizam temas como o da traição, da destruição dos lares ou de uma distinta tolerância em função do género, entre outros. Sem dúvida que a valorização de uma sexualidade mais activa e participada obrigou a uma reformulação destas narrativas, mas ela teve, porém, um efeito ainda mais espectacular! Estou a falar da neutralização desta forma de transgressão pela exponenciação de uma transgressão maior! A multiplicação do swing (há sites que têm centenas de casais inscritos) ou a frequência, por parte do casal, de locais dedicados ao sexo - sejam eles físicos, como uma sexshop, ou virtuais, por exemplo sites com conteúdo explícito - evidenciam essa transgressão partilhada.
Esta assumpção da transgressão tem um efeito paradoxal: não só neutraliza os efeitos contidos nas narrativas acerca da infidelidade como domestica a própria transgressão. Tal como sucede na foto de Rick Castro, crime e castigo ficam restringidos a um efeito cénico, ou seja, são contidos no acto ritual a que passam a pertencer. De facto, muito embora esta transgressão domesticada se expresse de várias formas, no essencial está contida num espaço e num tempo definido, sendo essa a marca mais evidente da transformação em ritual. A dimensão cénica e performativa pode até ser mais realçada se considerarmos que muitos dos comportamentos assumidos não chegam nunca a concretizar-se. A transgressão pode, efectivamente, ser apenas um simulacro sem que por isso perca eficácia. Anunciar a disponibilidade para cometer a transgressão significa corporizar uma narrativa que contém eficácia simbólica: converte-nos em agentes de uma forma (pós) moderna de viver o amor.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A nova ordem mundial do desejo!!

Balthus

Dizem-me que a convulsão e o arrebatamento dos corpos e dos instintos são próprios dos grandes finais. Asseguram-me que à morte dos grandes impérios sempre se associou uma espécie de falência de valores e certezas e que disso resultam múltiplas consequências. A ser assim, o declínio do império americano (abençoado seja o declínio, não o império…) será inevitavelmente acompanhado por uma série de desastres & catástrofes & bíblicas punições mas também por uma espécie de reinvenção do que somos através dos excessos. Dizendo de outro modo: para lá da perda do carro, da casa e da reforma, adivinha-se o regresso de algumas das extravagâncias que assinalaram a debacle de antigos impérios. Para ser ainda mais claro: podemos perder tudo o que disse e mais ainda, mas apaziguaremos a desgraça em orgias de proporções cósmicas! Dirão os mais apressados: lá está ele a confundir os seus mais destravados desejos com a dura realidade histórica! Juro que não. Desde logo porque falo de orgia em sentido amplo, como, aliás, teria que ser, já que lhe atribuo essa proporção cósmica. Mas a certeza de que não me engano reside noutro detalhe: é que esse estado orgástico há muito que começou e a ele, já hoje, poucos de nós escapamos.
Podia armar-me em chato e falar das orgias consumistas e de como o mundo inteiro se verga à sua lógica e despudor. Porém, como nesta conversa convém que o pé não vá além do chinelo, focar-me-ei nessa convulsão de corpos e desejos a que aludi (grande surpresa, não é?!). Habituado ao empírico por dever de ofício, não quero falar aereamente nem fazer de ideias superficiais matéria de tese. Ater-me-ei, rigorosamente, ao que observo da janela em que me debruço. A minha amiga Sofia confidenciava-me há dias o seu desejo de viver um amor simples. Olhei-a com espanto. Prisioneira habitual de indecisos amores teria ela encontrado a Verdadeira Luz? Precipitado como sou, pensei logo na velha fantasia de um amor e uma cabana, ou então, mais prosaicamente, nela e no seu rapaz, mão com mão frente à lareira, olhando na TV, embevecidos, a novela da moda ou uma comédia romântica. Do alto do seu metro e oitenta (saltos incluídos), olhos verdes e levemente estrábicos arregalados, depressa me esclareceu. Que não era nada disso. Que um amor simples podia incluir tudo (sublinhou o “tudo” abrindo os braços), desde que houvesse cumplicidade e partilha entre os dois. «Festarolas a três, quatro ou mais? Colchões de água e mergulhos em motéis em múltipla companhia?», perguntei eu ingenuamente. «Pois claro!», garantiu, com o olho ainda mais arregalado de genuíno espanto.
É este o meu ponto! Não há mais lugar à tranquilidade conubial de outrora. Conheço a imediata objecção: vendo bem nunca existiu essa tranquilidade, pois com uma facadinha aqui e outra ali quase sempre havia mais que dois no tálamo consagrado dos esposais. Isto é certo, mas admitam, caros leitores, que entre o que não se sabe, ou sabendo não se assume, e o que passou a fazer parte dos acordos do casal vai uma grande distância. Até que bate certo: deve ser a distância entre uma civilização no seu auge e a sua queda iminente. Há uma outra objecção de peso a que importa responder. Dir-me-ão que uma andorinha não faz a Primavera e que a Sofia é a Sofia, excelente moça a quem, eventualmente, os amores indefinidos terão toldado o sentido. Errado uma vez mais. Basta a gente passarinhar pela net, visitar sites de encontros ou conversar com desconhecidos para percebermos que a sinistra mancha do delicioso pecado alastra desgovernada. Bem sei que convém distinguir entre fantasia e realidade, mas o certo é que bastam dois minutos de conversa para que as todas as possibilidades eróticas menos convencionais se soltem no discurso. «Ménage a trois, já experimentaste?», «Clube de swing, já foste?», «Acreditas que a minha última queca foi numa cabina telefónica em plena Baixa?» Juro que é este o tom dominante, de tal forma que só nos resta proclamar o fim de império e brindar ao que aí vem.


Balthus


A esta sede de experimentação (leia-se vontade de rebaldaria…) associa-se uma logística cada vez mais sofisticada. A Sofia, ela mesma, já mostrou interesse numa máquina cheia de correias e alavancas que um amigo meu inventou. Mas também aqui não é só ela. Haverá ainda quem use um simples preservativo convencional? Já não! Agora têm que ser estriados, coloridos, com sabores, vibrantes, comichosos… eu sei lá! Também os consoladores nunca estiveram tão na berra. Vendem-se como pãezinhos e não há ninguém que se possa lamentar de não encontrar um a seu gosto – tamanho, forma, cor e minudência técnica adequada à fantasia de cada um/a. Toda a gente pode realizar fantasias pagando pouco. Ou nada. Chega a ser preocupante para quem gosta de coisas simples. Por exemplo, atreva-se alguma miss a ir para um primeiro encontro com uma daquelas cuecas confortáveis, de algodão e gola alta! Tenho a impressão que o parceiro, obnubilado pelos fantasiosos tempos que vivemos, a confundirá com alguma madre abadessa e fugirá dali a sete pés!
Poremos fim ao império ianque celebrando essa tal orgia de proporções cósmicas. Fim de um ciclo e nascimento do outro. As filosofias orientais não andam assim tão longe deste enunciado, só que dispensam os acessórios, os motéis e a internet. Seja como for, há-de ser a energia libertada por tão participado processo que nos redimirá. No novo ciclo logo virão causticas regras de contenção e pudor. Por isso, aproveitemos agora que o tempo urge e sempre ficaremos com a medalha de bons revolucionários para mostrar aos netinhos!

Balthus