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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Despedida de solteiro


Garry Winograndot




Entrou no carro convencido de que aquela era a última vez que o fazia. Não lhe pesava tanto essa certeza como a dúvida acerca dos gestos adequados àquele momento irrepetível. Sentia que cada um deles devia ter um significado especial, como se fosse parte de uma cerimónia ou de um ritual, mas enredava-se inabilmente num refinamento embaraçado e artificial. Logo ele, que sempre tomara tais disposições como artifícios dispensáveis e sempre subordinara a forma ao conteúdo, percebia que naquela ocasião devia vestir a pele de um oficiante e fazer de cada gesto derradeiro um testemunho que lhe sobrevivesse. Momentos antes, quando fora buscar a noiva ao centro comercial suburbano, fora capaz de a surpreender pela desmedida cortesia. Ele próprio surpreendido, para falarmos com inteira verdade. Jamais se vira ou imaginara naquele papel: saíra do carro para lhe abrir a porta, pegara-lhe na mão com inusitada ternura esperando que se sentasse, só depois lhe beijando o nó dos dedos com lábios de veludo. Ali sentados, lado a lado, na intimidade forçada do automóvel, seguiram calados, vendo como o trânsito se adensava na aproximação do centro urbano. Além de surpreendida, ela ficara embaraçada com aquele tratamento inesperado e deu por si imaginando que propósito esconderia. Também ele, homem de contadas e certeiras palavras, se distraiu em vagos pensamentos, conferindo mentalmente se cada um dos gestos de que se servira correspondia adequadamente ao vago mas indispensável modelo de relação romântica ensinada no cinema.
Levou-a a um restaurante absurdamente caro, um daqueles lugares onde a reserva de uma mesa podia levar meses a conseguir. Restaurante da moda, que por não abdicar um milímetro da tradição que lhe dera fama, conciliava na perfeição as fortunas emergentes com aquelas que iam decaindo e das quais apenas sobrava uma certa patine de distinção. Muda, intimidada, a rapariga apenas sorria, sem entender o que fazia ali nem como pudera o seu modesto noivo levá-la àquele lugar. Simples e discreto. Sempre pensara nele desta forma, mesmo que sentisse que havia também um lado profundamente misterioso e inacessível. Demasiadas perguntas sem resposta, demasiados espaços vazios numa vida de que apenas conhecia fragmentos dispersos através de confissões breves e acidentais. Mas ela não temia o silêncio nem os mistérios. Bastava-lhe o sorriso meigo, de menino sem amparo, e a meiguice que tornava irrelevantes quaisquer dúvidas ou inquietações. Também sucedeu assim naquela noite. Como se o sorriso brando fosse suficiente por si só, a única confidência que ela lhe arrancou foi que aquela seria uma noite muito especial para ele. Ela, baixando os olhos num pudor encenado, quis saber se seria especial apenas para ele. O homem olhou à volta e demorou na resposta, parecendo ponderar cada palavra. «Também para ti vai ser uma noite especial», acabou por dizer, mas não a olhou nos olhos nem lhe pegou na mão como ela gostaria.
O homem comia sem vontade, mastigando demoradamente ínfimos pedaços com ar sereno mas distante. Ela viu naquilo uma timidez prudente mas eram outros os sentimentos que o atravessavam. Em vão procurava evitá-los e fazer-se mais presente, mas sempre aquela ideia vã e despropositada se apossava dele e o prendia. Como seria a sua vida se pudesse deixar de fazer aquilo para que estava destinado? Que formas tão diversas podia ter assumido a sua existência se outros tivessem sido os seus compromissos? Quantas vidas ficam por viver em cada decisão que se toma? Era esta a pergunta fundamental, mas nem para ela nem para as demais procurava verdadeiras respostas. Queria apenas livrar-se daquela inquietação que o consumia e que era uma forma de dúvida que não se atrevia a assumir. Indomáveis, os pensamentos voltavam sempre mais fortes e ele observava a noiva com olhos intensos, certo de que tudo seria mais fácil se não a tivesse conhecido… Quando os olhares se cruzavam parecia ainda maior, mais intenso, aquela espécie de desejo contido e sufocado. Ela via os sinais mas não os entendia e chegava até a enternecer-se com aquele sofrimento que lhe parecia pura timidez.
Aquela era a noite em que todos os comprometimentos se iriam tornar claros e irreversíveis. Os compromissos sobrepondo-se a inesperados afectos e paixões que o agarravam e ameaçavam as fundas convicções. Sabia que as escolhas estavam feitas há muito e que os desejos, mesmo os mais profundos, não podiam sequer ser confessados. Sobretudo os mais profundos. Sobrava-lhe aquela esperança inconsequente de no final de tudo se poder reencontrar com o mesmíssimo amor a que agora fugia. Desejo de transcender o tempo e as circunstâncias que determinaram as escolhas definitivas. Rasurar espaço e tempo e regressar a ela como um corpo que emerge das águas frias a que foi arremessado.
Quando o jantar se aproximou do fim, à hora em que no restaurante se multiplicavam vozes e pessoas, a sua tensão e desconforto aumentaram. A mulher não pôde deixar de o notar na indecisão das escassas palavras e no fio de suor que lhe atravessou o rosto. Generosa, inventou entusiasmo e jovialidade, convicta que dessa forma o ajudava a formular o pedido que ansiava ouvir. Logo que acabou a sobremesa ele deixou-a. Demorou tanto tempo nos lavabos que parecia até esperar que ela se cansasse e partisse sozinha. Quando regressou à mesa vinha lívido, parecendo tão cansado que se diria transportar consigo todas as penas do mundo. Pela primeira vez desde que ali tinham entrado pegou-lhe na mão. Fê-lo com a ternura habitual, mas juntou-lhe também doçura tão intensa como ela nunca experimentara. O sorriso da mulher revelava a sua alma: chegara o momento feliz por que tanto esperara. Agora sim, nenhuma dúvida de que ele pusera de lado todas as incertezas e hesitações. Raras são as vezes em que o sorriso de dois amantes se encontra em tamanha sintonia como naquele breve instante. Foi então que o homem levou a mão ao bolso e activou o engenho que trazia preso à cintura. As notícias do funesto acontecimento insistiram num macabro recorde: nunca um atentado terrorista fizera tantas vítimas inocentes naquela infeliz cidade.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Brincadeira de criança


Diego Rivera


Como sempre sucedia, entrei no quarto como num santuário. Fora ali que passara os melhores momentos da minha vida, infinitas tardes de pura felicidade, memórias que não posso nem quero apagar. Eu e o meu avô, sempre os dois, parceiros inseparáveis, companheiros de brincadeiras, cúmplices absolutos que a diferença de idade nunca colocou em causa. Como pude sobreviver àquela morte, à enorme perda que de tão esperada se tornou irreal? Nada há de que me arrependa. Cumpri a parte que me coube, e esta parte, tão dolorosa quanto feliz, não pode ser mais que conservar viva a perfeição do passado. Sei que não volta, esse passado. Não sou tolo, bem sei que em tudo o que faço pesam, em partes iguais, a ilusão e a memória. E isso que me importa? Neste quarto em que sempre me recolho, mantive prisioneiras as sombras da minha infância. Entro nele e volto ao que fui. Ao que fomos. Só que agora é um lugar apenas meu, no qual ninguém mais cabe ou virá alguma vez a caber. Um lugar onde, sempre que posso e me deixam, reencontro o meu velho companheiro de brincadeiras.
Era exactamente assim que nos sentávamos, à maneira dos índios, como garantia o meu avô, pernas cruzadas e mãos sobre os joelhos, um frente ao outro, sorrisos e olhares cruzados enquanto decidíamos o que fazer. Esta caixa em folha-de-flandres, com os desenhos de cores esbatidas pelo tempo, já estava aqui naquela altura. Claro que tive que lhe mudar o conteúdo, mas essa foi apenas uma operação indispensável para que tudo pudesse aproximar-se ao que sempre fora. Há de novo ilusão nisto que digo, bem o sei, mas que seria de mim sem ela, sem a força e o ânimo que só a fantasia me dá? Abro a caixa e faço correr pelos dedos as peças alvacentas. De cada vez que lhes toco parecem-me mais leves, como fossem secando por dentro, dessa forma lhe aprimorando a forma, talvez adequando-a à função que lhes atribuo.
Espalho a meus pés, no oleado gasto e já sem cor, as peças redondas, anguladas por espigões ratados mas ainda nítidos. Devo agora, com duas peças compridas e levemente curvas, agarrar as redondas e devolve-las à caixa que as guarda. São essas as regras: claras e precisas como sempre foi nosso hábito. Não sei que técnica usaria se fosse ainda criança, de que forma me guiariam as palavras de meu avô, mas agora colo-as as peças compridas aos dedos como se fosse dois pauzinhos de um restaurante chinês. Faço delas uma extensão dos meus dedos, dou-lhes um jeito de pinça, de forma a fazer entrar uma delas no buraco irregular das peças redondas e só quando a sinto bem presa é que a levanto e arrumo na caixa. Jogo nenhum se faz sem regras e este, criação minha em intenção do meu velho companheiro, não poderia ser diferente. Regra fundamental: não posso bulir, por pouco que seja, em peça diferente daquela que pretendo capturar. O mínimo erro nesta condição obrigar-me-ia a recomeçar tudo do início. A concentração é essencial. Concentração e cautela, como, estou certo, o meu avô me recomendaria, caso fosse outra a condição da sua participação neste jogo. Mãos firmes, gestos precisos, associados à falsa lentidão de um felino.
Gradualmente o jogo torna-se mais fácil. Conforme vou avançando e deslindando o acidental emaranhado de peças, como se desatasse os nós de uma confusa meada de lã colorida, define-se com limpidez o caminho a prosseguir. Porém, a clarificação do desenho e da tarefa cobra fatalmente o seu preço. A mão começa a suar e um torpor ingovernável ameaça fazer-me perder a concentração. As peças, rígidas pinças deformadas, colam-se aos dedos húmidos e chegam a desobedecer-me até nos mais fáceis movimentos. E depois, para lá disso, sempre me acontece o mesmo. Devia prevê-lo e evitá-lo, mas nunca consigo. Sempre deixo para o fim o mais árduo emaranhado de peças, como se à vista da meta final fizesse questão de enfrentar a enormidade de uma escarpa que importa vencer. Fecho os olhos procurando reencontrar a concentração. Sei que encontrei e venci piores desafios. Vendo bem, não é nada de mais o que me resta. Quatro peças singulares, encavalitadas umas nas outras, fundidos os ângulos agudos com os buracos que as abrem a meio. Nessa evidente metáfora que é a conjunção do côncavo com o convexo, reside a maior das dificuldades. A minha mão treme agora visivelmente no esforço de desmontar o novelo. Recuo, respiro fundo e volto a tentar, desta vez de forma ainda mais decidida, mas aconteceu o desastre que temia. Não foi preciso mais que um pequeno toque, uma coisa de nada, e todo o montículo se abateu quase sem ruído.
Que diria meu avô? Quase posso ouvi-lo, recomendando paciência e determinação. Sábios ensinamentos, esse como outros, e é com eles na mente que volto a lançar as peças redondas disposto a recomeçar o jogo. Paciência sem determinação é moleza, mas da determinação sem paciência também não resulta nada de bom. Era assim que meu avô falava, com a diferença de usar palavras antigas e sábias, palavras que não esqueci, posso jurá-lo, mas que nem sempre me ocorrem. Como agora mesmo sucede. Tampouco é isso que neste momento importa. O que a mim mesmo devo exigir é absoluta concentração. O cumprimento desta tarefa a isso obriga. Recomeço, portanto, a juntar peça atrás de peça e teria, sem dúvida, chegado ao fim, não fosse ouvir de repente a chave entrando na fechadura. É sempre desta forma que me apercebo da chegada da minha esposa, e ela, por muito amor que lhe tenha, não tem lugar neste mundo que é só meu. Sem pressa, sabendo com precisão de que tempo disponho, pego em todos os ossinhos do meu avô e arrumo-os na velha caixa de folha lacada. Só depois de me assegurar de que nada ficou fora do seu exacto lugar, é que saio do quarto, sorridente e apaixonado, para saudar a minha amada esposa.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Remington




Christian Coigny


Com a solenidade que há muito encenara escreveu as derradeiras letras: «FIM». Finalmente aquelas letras, conjugação de astros no horóscopo prometido. Colocou ambas as mãos na pilha de papel dedilhado a máquina de escrever e evocou aqueles longos meses de penoso trabalho. Lançou a baforada cinzenta que retivera nos pulmões sobre as teclas marmóreas e ficou a ver como o fumo as envolvia. Adorava cenários íntimos e decadentes. A virtude do ícone na era da informática! Que outra razão para insistir em escrever numa velha, velhíssima, Remington? Queria para si uma imagem tão forte como aquele aço temperado - Remington misturando-se com o seu nome, a máquina como extensão do corpo, os dedos precisos acariciando as teclas com ternura de amante.
Viver num cenário! Fascinava-o a ideia, vendo nela um vislumbre de perfeição. Bem sabia que o cenário é apenas a parte que deixamos ver e queremos mostrar, caminho indispensável contornando a verdade. Era cenário a batida compassada das teclas e a imperfeição das letras pela usura do chumbo após tantos anos de uso. Por exemplo, a cabecinha do a como testa partida ao meio, ou o x que parecia querer imitar o y. Imperfeições que eram sinais, manchas de sublime humanidade na obra que acabara de escrever. «Breves imperfeições para realçar um sublime amor». Anotou-o a frase no canto de uma página. Não se esqueceria de a usar quando chegassem as entrevistas que lhe dariam o merecido reconhecimento.
Caminhou até ao quarto pensando no sucesso e no modo como iria lidar com ele. Nada que o preocupasse verdadeiramente. Aquela escrita sofrida não o impedira de se preparar para o êxito. Antecipava mesmo a amargura que o sucesso transporta consigo. Tudo escrito nas estrelas com esse mesmo chumbo, cansando mas indelével, dos caracteres imperfeitos: fortuna e perda, sorte e azar, fita bicolor correndo na velha Remington, continuamente batida até que a tinta se esgote. Que outra coisa pode contar mais que a oscilação do eterno pêndulo? Que virtude acima da capacidade de descrever o encanto que nos arrebata e a tragédia que nos destrói? A tinta espirrada no papel, alinhando palavras letra a letra, até ao momento em que a magia se suspende e o chumbo bate no papel sem o imprimir. Também aí corpo e máquina como um só. A dor dos momentos vazios em que também ele ficava em branco, exactamente como o papel correndo na pesada Remington sem fita. Era nessas ocasiões, nesse mergulho no imenso deserto branco, que mais precisava dela. Da sua voz e do seu olhar. Palavra e gesto numa harmonia que o tranquilizava quando lhe dizia: «As palavras vão continuar a crescer. Não te inquietes. Por vezes há momentos em que tudo morre para logo renascer mais forte». Só mesmo ela poderia dizer algo que se ajustava de forma tão perfeita ao seu impúdico desejo de querer ser outro a cada dia. Morte e renascimento, ciclo perpétuo de mil vidas atravessadas numa só, articuladas todas elas pelo ritmo das palavras que flúem e se retraem.
Deitou-se ao lado da mulher com vontade de a abanar ternamente para lhe contar que finalmente acabara. Que a fiel Remington escrevera as derradeiras letras e que aquele «FIM» batido com raiva era um compromisso de mudança. Dizer-lhe que ele próprio se esgotara e sabia que a esgotara a ela, mas que agora, fim de ciclo, tudo recomeçaria. Morte e renascimento. Quis acordá-la e falar-lhe de tudo isto, mostrar-lhe como o horizonte se desanuviara e enchera de promessas. Tocou-a levemente, quase a medo, e achou-a fria, distante, quase sopro gélido saindo daquele corpo em profundo repouso. Corpo exaurido, gasto, consumido no desvairado processo de traduzir na palavra o louco amor que os unia. Fora isso mesmo que ele fizera: em cada tecla batida na velha máquina, em cada palavra composta, um pedaço daquele amor. Súplicas, desejos, esperanças, mesmo os beijos que ficaram suspensos entre os lábios e o papel. Aquele amontoado de folhas dactilografadas era a sua obra e a alma dela.
Sempre soube o risco que corria, mas haverá outra forma de mostrar o amor a quem nunca o viveu? O amor feito palavra, não o retrato falado de um amor. Uma essência arrancada gota a gota do mais profundo esconderijo do amante para deleite e instrução dos demais. Párias, desapaixonados, infiéis, futuros amantes… tanta gente esperando a sua obra! Ali estava ela – e o homem, de novo de pé, punha a sua mão cansada sobre as folhas como se avaliasse o resultado do empreendimento. «O mistério da transmutação», sussurrou repetidamente. O corpo e a alma de tal forma vertidos para o papel que bastaria amassá-lo para dele escorrerem mel e lágrimas. Beleza e sofrimento, criação e morte.
Este foi o momento preciso e irrepetível em que o homem percebeu a perda. Tocou no ombro da mulher e não sentiu nem o calor que desejava nem o frio que temia. Apenas uma moleza sem vida, invólucro vazio testemunhando a perfeição da sua obra. Tinham sido os seus dedos a transformar aquela vida em palavras ditadas febrilmente à velha Remington. Gota a gota, quase sem dor, conseguira aprisionar na escrita toda a alma dela. Não o sangue mas a alma - invisível, sem substância, pingando a cada batida das teclas, com ela se esvaindo o amor mas apenas para renascer num lugar sem tempo, finalmente eternizado em palavras vivas.
O homem retirou a mão do ombro da mulher e colou-se a ela. Sentia agora um frio tão intenso como se abraçasse uma estátua de gelo. «O mistério da transmutação», repetiu. «Ao mistério da transmutação esta morte por expiar». Uma coisa valendo a outra. À honra o castigo; ao assombro de quem lê a dor de quem escreve. Deixando a mulher, o homem voltou à máquina de escrever. Acertou o papel branco no cilindro e estalou os dedos. Um prefácio! Sim, um bom prefácio poderia redimi-lo. Sorriu ao escrever. Sabia que bastaria uma parte da sua alma vertida no papel para apaziguar a justa censura das almas alheias.


Gian Lorenzo Bernini

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Jogo duplo

René Magritte



Apertou o papel na mão fechada até sentir que os vincos lhe magoavam a carne e só quando se assegurou de que ninguém a olhava ou percebera o seu gesto, se atreveu a lê-lo. «Estarei no bar Gabriel e os Anjos hoje às 11 horas. Se fores capaz de me identificar, serei teu esta noite. Leva as asas para voarmos juntos». Só isto, nada mais no pedaço de papel cuidadosamente dobrado que encontrara ali, entalado na almofada daquela cadeira anónima da pastelaria onde ia cada manhã.
Era uma daquelas mulheres discretas, cuja beleza jamais se revela ao primeiro olhar. Uma daquelas belezas escondidas e reservadas, terreno conquistado e colonizado pelo companheiro de muitos anos. Um daqueles casos em que a beleza dos começos se perde irremediavelmente, da mesma forma inevitável que as rugas substituem a macieza da pele ou os cabelos brancos roubam o brilho ao cabelo com que atravessamos metade da vida. Esta mulher estava no ponto exacto em que tais efeitos se tornam uma realidade inescapável. Sem ter consciência disso, estava num lugar de fronteira, balouçava na linha invisível que separa redenção e perda – lugares tão difusos e cambiantes que raramente temos a certeza de qual o lado da fronteira que cabe a um e a outro.
Ela, que sempre fora fiel e feliz com o amor que escolhera, escondeu o papel entre as mãos unidas e levou-as à altura do peito quase com ternura. Demorou alguns segundos aquele pasmo melancólico. Quase de imediato se sentiu ridícula e desabou numa gargalhada nervosa. Como pudera pensar, sequer por momentos, que aquele convite lhe era dirigido? Sabia que havia gente que se divertia assim. Pelo menos imaginava que pudesse haver. Um papel sem destinatário e sem verdadeiro conteúdo! Sempre gostaria de saber o que sucederia se alguém respondesse ao convite. E se ela o fizesse? Encontraria alguém rindo-se da situação? De novo se sentiu ridícula por ponderar sequer semelhante hipótese. Afinal, talvez o papel estivesse ali há dias, há semanas… Não, isso não, estava certa que não. Ontem mesmo estivera sentada naquela cadeira e conhecia bem aquele gesto, quase vício, de entalar a mão na dobra das almofadas. E se o papel fosse realmente para ela? Olhou à volta de forma mais atenta e comprometida. Àquela hora a pastelaria estava quase vazia e só os olhinhos míopes de uma gorda decotada pareciam olhá-la com interesse.
Quando no fim do dia chegou a casa, o papel estava guardado no bolso das calças, ainda tão cuidadosamente dobrado como quando o encontrara. Não o esquecera todo o dia, embora a si mesmo assegurasse que sim. Ao debruçar-se sobre o marido em busca do beijo rotineiro, colocou-lhe a mão no ombro e fez desse gesto o compromisso de esquecer toda aquela loucura inconsequente. Aquele seria um serão como todos os outros mansos serões habituais. Ou não, melhor fazer diferente. Dar-lhe o jeito de uma comemoração ou de um ritual. Porque não cozinhar para ele? Há quanto tempo o não fazia! Substituiria a falta de talento pela devoção e faria dela uma prova de afecto, testemunho inquebrantável do apaziguamento que já sentia. Levantou-se decidida e foi completamente involuntário o gesto que lhe levou a mão ao bolso. Sentiu o papel como uma brasa queimando-lhe os dedos. Nenhuma dor, mas uma espécie de chama branda e convidativa que lhe foi subindo pelo braço e se apossou do seu corpo.
«Vou ter que sair mais logo. Uma reunião inesperada. Acho que não consigo voltar cedo». Disse aquilo mas foi como se outra pessoa o tivesse dito com a sua voz. Estranha sensação de alívio e de medo, bizarra mistura que nunca experimentara. Longe do marido, sentido o coração cavalgando desembestado, voltou a ler o papel. Quanto não daria para de novo sentir o ridículo que sentira antes. Um ridículo profundo que a levasse a desdizer-se, «Afinal a reunião foi desmarcada. Fico contigo».
Saiu tensa e apressada, evitando o olhar do marido. Verdadeira executiva a caminho de uma reunião, ar duro e determinado, sem nenhuma maquilhagem que lhe disfarçasse o cansaço. Num saco discreto mas inesperado levava uma saia mais curta e umas meias de rede. Não tinha já memória da última vez as usara. Habituada a gerir uma agenda carregada, calculou tudo com precisão. Uma passagem rápida pelo ginásio fez dela outra mulher. Descobriu com surpresa que o seu corpo guardava ainda a virtude da sedução. Eram as mesmas formas, apenas o tempo as enquistara sem que ele alguma vez o percebesse. Gostou da sensação de reencontrar a mulher que fora. O sorriso denunciava a alegria da descoberta de uma parte esquecida de si.
Entrou no bar às onze horas. Fez questão desse rigor quase maníaco que a tornara notada na empresa. Empurrava-a a vontade de acabar com tudo aquilo rapidamente, rejeitando, ao mesmo tempo, a responsabilidade de algum eventual equívoco. Se o convite era para as onze horas, ali estava ela, disposta a procurar de peito aberto quem a convidara. As cartas estavam na mesa e se havia jogo ela queria jogá-lo até ao fim. Não precisou procurar muito. Ali estava ele, numa mesa de canto, debaixo de um espelho oval emoldurado em talha dourada. Em momento algum hesitou ou teve dúvida. A forma como os olhares se cruzaram revelou que também ele percebera o acordo e que as palavras eram dispensáveis.
Amaram-se no motel mais próximo e as palavras apenas rebentaram no momento em que os dois corpos se fundiram e abrasaram. Havia em tudo aquilo uma pressa furiosa, um tesão que parecia ter ficado guardado durante anos e agora ansiava por ser consumido numa chama súbita e deslumbrante. Ficaram calados depois. O corpo do homem ofegante sobre o dela, os dedos entrelaçados de encontro às coxas tensas, que relaxavam com espasmos súbitos e incontrolados. Mais tarde saíram do motel separados, cada um voltando devagar à vida serena a que estavam habituados. Haviam de se encontrar em casa e, então sim, trocariam as palavras banais que sempre usavam para planificar o dia seguinte.

sábado, 20 de setembro de 2008

Rock Hotel

Egon Schiele


O teu corpo desenhado no lençol por sopros de luz. Centelhas dóceis, rendidas à perfeição da forma, entravam pelas frestas da persiana corrida e eram línguas de fogo viajando a uma velocidade tão assombrosa como a tua beleza. Trezentos mil quilómetros por segundo, uma tão espantosa velocidade que apagava todo o espaço. Tu e a luz negando o vazio, aliados improváveis mas irrepreensíveis. Seria por isso que enchias o quarto e o meu espanto. Posso jurar que não precisava olhar para te ver. Estavas em toda a parte. No espelho que nos reflectiu enquanto nos amávamos, na almofada a que dormiste abraçada e que agora jazia a meus pés, até mesmo na cadeira em que me sentava, sobreposta a mim, parte maior de mim. Estavas também na janela ainda fechada, transbordavas para fora do quarto, para a cidade sempre agitada que nem sequer imaginava que nós dois existíamos e nos amávamos naquele quarto de hotel a que já nos tínhamos habituado. Gosto de olhar-te assim pela manhã. Acompanhar os primeiros raios de sol assomando nas frinchas mais altas da persiana. Como são lentos esses farrapos de luz. Tantos quilómetros por segundo e tanta lentidão. Estou certo de que a luz admira o teu corpo tanto quanto eu o admiro e é por isso que nega a sua natureza e se torna lenta, percorrendo com mansidão cada centímetro da tua pele. Tantos mil quilómetros por segundo e a luz parando ali como se não houvesse tempo. E também eu fico preso na mesma teia, cúmplice do sol matinal, enredado na teia que ele estende como um véu que a pouco e pouco te vai cobrindo. A quantos quilómetros por segundo chega o orgasmo? Não falo do seu anúncio, que esse manifesta-se em sinais claros e que aprendi a ler. Aprendi o significado de cada contracção do teu rosto, do caminho que as tuas mãos percorrem, quando abandonam o meu corpo e se concentram no teu. Indícios tão claros como os alvores rosáceos pressagiando um dia de calor. Pressinto o teu orgasmo antes que tu o traduzas em palavras ou em gemidos. Talvez de tanto te amar o pressinta mesmo antes de ti. Mas do que falo não é desse caminho que o orgasmo faz das entranhas para a alma. Do modo como vem desde um lugar fundo, de um subterrâneo aberto desde a raiz do próprio tempo, deste nosso tempo de homens que a luz atravessa a trezentos mil quilómetros por segundo. Falo de outra coisa. Falo da velocidade com que ele te abala o corpo, de como te percorre toda inteira: inteiriça como um animal mergulhado no prazer e no vício. Bem sei que ele dura depois nas suas consequências, se prolonga em espasmos e convulsões, deliciosos efeitos secundários. Mas ou não há um momento preciso, exacto, condensado numa tensão de um nanosegundo? Espécie de flash viajando a quinhentos mil quilómetros por segundo, negando na sua exuberância as próprias leis da física. Falei-te nisso e tu riste como só tu sabes rir. E eu ri-me contigo, e rebolamos juntos na cama desfeita, os lençóis enrodilhados deixando ver o colchão azul, enorme e quadrado que não conhecia norte nem sul. Colchão-arena, tapete voador dos amantes, corpo-delito a que sempre voltávamos com a complacência do gerente. Hotel Dublin, local de eternas núpcias, achava eu antes mesmo de te perder para outros abraços.






A última vez que entrelaçamos os dedos. A derradeira carícia que se imprimiu em mim de forma tão profunda que ainda hoje sinto, dedo a dedo, a tua mão entre as minhas. Fiz batota, acho que fiz batota. Só eu sabia que aquela seria a despedida e pude, por isso, guardar para mim o teu calor. Que sentirás tu hoje, tantos anos passados? Serei na tua memória um esquecimento? Não sei sequer se o teu ódio por mim foi uma ferida purulenta ou uma mazela sem importância. Sobreviverei em ti como uma cicatriz? As vezes que voltei ao Hotel Dublin carregando comigo estas folhas em que escrevo como se te levasse comigo, como se tivesse sido possível ter-te transformado em palavras. O amor está na cabeça e nas palavras que dizemos. Se isto fosse uma carta, se acaso o pudesse ser, perguntar-te-ia se ainda te lembras de como acreditávamos nesta ideia tão simples e de como buscávamos palavras novas e nos enternecíamos e surpreendíamos nelas. Era um jogo, bem sei, mas não percebi que o devíamos ter guardado só para nós. Ah, a minha alma de artista apenas se alimenta do universal! Como podia eu sufocar de amor e deixar-te sufocar a ti se o mundo inteiro me esperava e te esperava. E todavia, quanto eu não daria para te ver interpretar uma peça minha. Esse prazer simples das minhas palavras na tua boca. As minhas palavras misturadas com a tua saliva, formando-se no profundo erotismo de lábios, língua e dentes movendo-se na tua boca. Teria bastado mas quem o podia saber naqueles vagos anos de entusiasmo e presunção. E depois surgiu ele. Mentira: sempre esteve ali, na sombra, esperando o momento. Janus, face luminosa de amizade disponível escondendo a outra, a paciente face do caçador que espera a fragilidade da vítima para sobre ela se abater. Estou a ser injusto? Descobriste nele qual das faces? Pode ele iluminar-te como eu te iluminei? Antes te sufocou de tal forma que nem esse sufoco imenso percebes. E no entanto devias percebê-lo. Logo tu, a mais certeira das apostas do Rock! Sobraram uns quantos cartazes desbotando entristecidos no seu gabinete-quarto-sala de exposições-antro de visitas-caverna de assombrações e de fantasmas. «Rock Hotel! Fantasmotel! Não perca, entre no Rock e sufoque!».

segunda-feira, 31 de março de 2008

Identidades desfocadas

Paula Rego

Certificou-se primeiro da regularidade da respiração do homem e de que aquele ressonar fino e sibilante correspondia a um sono real, não sendo um artifício destinado a apanhá-la em flagrante. Quando se sentiu segura pegou nas calças que estavam dobradas numa cadeira e levou-as até aos pés da cama, para o único lugar iluminado por três estreitas frinchas abertas no estore. Não se sentia bem a fazer aquilo, mas considerava indispensável tomar aquela providência para evitar males maiores. Os segredos de um homem são a nossa condenação, murmurava baixinho, enquanto arrastava os pés, que se escondiam dentro de uns enormes chinelos peludos de fantasia.
Tirou primeiro uma carteira de cabedal castanho e arrumou-a cuidadosamente sobre a colcha branca, de tal forma que as suas linhas coincidissem rigorosamente com os feixes de luz que entravam pela janela. Meteu a mão mais fundo no bolso e encontrou o que parecia um pedaço de plástico. Procurando amarrotá-lo o menos possível, prendeu-o entre os dedos indicador e anelar, e foi desse forma que o retirou e elevou até à altura dos olhos. Estes eram pequeninos e míopes, mas o seu azul pálido faiscou quando percebeu o que tinha na mão. Era, sem dúvida, o invólucro vazio de um preservativo. Levou-o ao nariz, como se assim pudesse provar alguma coisa, e depois introduziu um dedo no rasgão e sentiu como o interior estava ainda gomoso do lubrificante. Apeteceu-lhe acordar o homem aos safanões e aos gritos e confrontá-lo com aquela prova insofismável da sua falta.
Nunca saberemos se o teria feito ou se daquela vez conteria a fúria, porque ao virar-se bruscamente na cama, o homem expôs o rosto, até aí semi-escondido entre as almofadas. A mulher sorriu. Como pudera cometer tamanho engano?! Via agora claramente que aquele não era o seu marido. Quem ali dormia, sonhando talvez com ela, era, afinal, o seu amante. Tudo se explicava e encaixava da forma que ela tanto gostava. Fora com ela que aquele preservativo fora usado. Lembrava-se bem do cheiro acre a gasolina e a napa dos estofos do velho Ford Escort. Via ainda os vidros embaciados e o modo como ele, mal contendo o desejo, rasgou com os dentes aquele invólucro que agora reencontrara.
Depois de colocar o pedacinho de plástico em perfeita simetria com a carteira e de confirmar a coincidência com os rectangulozinhos de luz, a mulher atravessou o quarto para olhar o homem de um ângulo mais favorável e voltou sorrindo para a sua tarefa. Abriu a carteira e o seu conteúdo pareceu crescer logo que a mola se soltou. Havia talões bancários e uns papéis amarelos com números de telefone anotados apressadamente. Foi tirando os cartões coloridos que espalhou metodicamente à sua frente. Abriu uma divisória plástica e descobriu algumas fotos. Em lugar de destaque estava a de uma mulher jovem e bonita. Poderia ser ela? Talvez sim, mas seguramente mais nova. Identificava os olhos azuis, mas não se lembrava de alguma vez ter usado aquele vestido preto, tão justo que revelava todas as formas de quem o vestia. As outras fotografias não a ajudaram. Mostravam duas crianças loiras e sorridentes, mas ela sabia que o seu amante não tinha filhos, ou pelo menos assim pensava. A última fotografia do conjunto surpreendeu-a. Era o seu marido, sem dúvida. Era dele aquele ar cansado e infeliz, a sombra que se pusera no seu olhar desde que ela adoecera. Como era aquilo possível?! Que sórdidos laços podiam unir aqueles dois homens da sua vida?
A respiração do homem tinha-se tornado mais pesada, acompanhando o ressonar mais audível. De repente pareceu ficar sem ar e o corpo sacudiu-se e agitou-se até recuperar o ritmo sereno de um sono profundo. A mulher voltou a olhá-lo, agora de um novo ângulo. Como fora possível?! Como pudera ela enganar-se uma segunda vez?! Fechou os olhos apertando as pálpebras, numa acusação surda àquela desagradável miopia. Agora não tinha qualquer dúvida: o homem que dormia à sua frente era o seu filho. Afinal tudo se explicava a contento. Os devaneios da juventude, ora, como se ela não soubesse o que isso era! Era importante, todavia, ficar atenta. Obrigação de mãe que estima os filhos e para eles procura o melhor. Foi por isso que se aproximou de novo da cadeira, desta vez para pegar no casaco. Sabe Deus o que um filho é capaz de esconder da mãe! Nunca as cautelas foram de mais em situações como esta.
Mal a mulher começara a inspecção dos bolsos interiores do casaco, a porta abriu-se e uma segunda mulher entrou. Pegou no braço da outra e só no corredor, após fechar a porta, lhe deu a justificada reprimenda.
- Parece impossível, Dona Lucinda. Esta mania de entrar no quarto dos hóspedes tem que acabar! Não posso deixá-la um só momento sozinha? O que diria o seu falecido marido se a visse fazer estes disparates? Volte lá para o seu quarto, e à próxima escapadela tranco-a a sete chaves. Vai ver!

quinta-feira, 20 de março de 2008

O golpe

Julian Freud


Era um objecto pesado e frio, anguloso no seu vidro fosco raiado a azul. Os quatro rasgões na sua superfície tinham marcas já antigas e irremovíveis dos incontáveis cigarros que neles tinham repousado. Na base, imperceptível a um primeiro olhar, o cinzeiro apresentava uma mossa, como que um quinto rasgão, mas este irregular, sem forma definida. Vestígio de uma pancada ou queda que deixara o vidro esfacelado e cortante naquele ponto exacto.
O cinzeiro estava vazio e limpo, quase brilhando na débil luz daquele começo de manhã. Ele estendeu a mão e como se quisesse tomar-lhe o peso faz balouçar o braço direito, sentindo o vidro polido na aspereza da mão aberta. Encolheu o dedo indicador e fê-lo coincidir com o oco, sentindo aquela textura irregular em contraste com a restante superfície, que era lisa e tão polida que chegava a colar-se à sua pele quente e um pouco húmida. O oco parecia feito à medida. O seu dedo assentava naquele buraco de forma tão perfeita que parecia ter sido feito exactamente para esse efeito. Como se fosse um gatilho.
Mantendo o objecto preso entre os dedos, o homem fechou os olhos. Os lábios finos, sombreados pela barba que despontava forte, esboçaram um trejeito de sorriso. Apenas uma insinuação de felicidade, como se a sua mente tivesse sido despertada por um desejo ou uma memória. Imaginou que fora um crime hediondo e desnecessário que provocara aquela mossa no cinzeiro. Fez um esforço para visualizar o objecto manchando de sangue o chão da cozinha e imaginou-se a si mesmo agoniado, incapaz de despegar os olhos da sombra vermelha, que escorria lentamente, arrastando consigo uma mecha de cabelos loiros.
Quando voltou a abrir os olhos, o homem ergueu o cinzeiro e apontou-o ao sol que despontava no horizonte distante. Fez com que o reflexo brilhasse na parede e depois, recordando uma brincadeira que fizera muitas vezes enquanto criança, moveu aquele clarão com rapidez ao longo da parede vazia.
Levantou-se depois desajeitadamente, como se exagerasse a dificuldade desse acto tão simples. Cambaleou um pouco às primeiras passadas e acabou por tropeçar numa garrafa vazia que se escondia entre vagas peças de roupa que se espalhavam no percurso. Quando recuperou o equilíbrio dirigiu-se à cozinha, sempre agarrando o cinzeiro na mão tensa. A mulher estava encostada ao lava-loiças como se tencionasse servir-se dele, mas sem fazer qualquer movimento. Os braços nus pendiam-lhe molemente, enquanto os dedos da mão esquerda se entretinham com as pregas da toalha em que se enrolara. A cabeça estava baixa, deixando ver a nuca magra e ossuda, e os cabelos loiros caiam-lhe nos ombros numa simetria quase perfeita. Ela percebeu que o homem se aproximava mas não se virou. Foi então que sentiu a pancada seca e certeira que a matou. A segunda pancada que se ouviu naquela manhã foi a do cinzeiro caindo no chão da cozinha. Estava manchado se sangue e na mossa irregular onde o homem descansara o dedo estava agora um coágulo acinzentado a que se agarrara ainda um punhado de finos cabelos loiros.