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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Zoo humano

Hans Bellmer


As memórias são assim mesmo: guardamos algumas ciosamente, por vezes a tão bom recato que recusamos mesmo partilhá-las com quem quer que seja, enquanto outras, perdidas sem pena, nos visitam inesperadamente e sem que alguma razão verdadeiramente válida as tenha convocado. Sucedeu isso mesmo quando arrumava uma estante e deparei com um livro que há muito esquecera, Freaks, no qual é revelada uma curiosa colecção fotográfica de «aberrações humanas». Gigantes e anões, irmãos siameses, mulheres barbudas, hermafroditas e homens com cauda, entre muitos outros exemplos de humanas criaturas - a maior parte das quais ganhou a vida exibindo-se em feiras e circos – constituem o espólio recolhido pelo negociante de arte, Akimitsu Naruyama, e mostrado em Freaks.

Este livro, inesperadamente redescoberto, significou para mim dar uma trinca na madalena proustiana, salvo seja. Graças a ele reencontrei-me com uma das primeiras imagens de estranheza e fascínio de que consigo lembrar-me. Trata-se de uma memória de tal forma desbotada que se torna impossível distinguir as fronteiras entre aquilo que de facto vi e o que terá sido posteriormente acrescentado. Na cidade de província onde vivia chegou um dia, juntamente com outras atracções de feira, o «Gigante de Moçambique». Estou certo de que foi mais por curiosidade minha que por interesse próprio que meu pai me levou à tenda onde o «fenómeno» era exibido.

Julgo que se viveria então o começo dos anos 70, época em que atracções como aquela ainda agitavam o quotidiano das cidadezinhas de província. Não esqueço que vivíamos então num país esquisito, mais esquisito ainda do que o país em que hoje vivemos, mas ainda assim, olhando a esta distância, uma exibição como aquela talvez enfermasse já de um profundo anacronismo. De facto, os freaks do meu livro tiveram a sua época. Fizeram furor no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX mas desapareceram de cena tal como o Emplastro Leão ou o óleo de fígado de bacalhau. Sobraram todas estas fotos que agora olho, enquanto procuro, nos subterrâneos da memória, alguma imagem mental do «meu» gigante moçambicano. Vício de putativo e frustrado escritor, não posso deixar de pensar nas fantásticas possibilidades narrativas contidas naquelas vidas singulares. Acho que foi por esta razão, confessadamente interesseira, que procurei saber mais sobre aquele homem desmesurado que vi pela mão de meu pai. Num outro post falarei dele, mas por agora deixarei de lado esses quase dois metros e meio que lhe deram fama e sofrimento. É outra a questão que aqui me interessa.



«Vénus hotentote»


No início do século XIX uma jovem bosquímane de nádegas salientes, apelidada de «Vénus hotentote», fez furor na Europa, sendo exibida ao público ao lado de outros «fenómenos bizarros». A particularidade anatómica que fez dela objecto de curiosidade - tanto de cientistas quanto do público anónimo - era vista como característica da sua «raça», facto que, está bem de ver, confirmava alguns dos estereótipos mais correntes acerca da sexualidade desbragada dos selvagens. Muito embora fossem muitas as características e diversas as proveniências das «peças» expostas num autêntico zoo humano planetário, pode dizer-se que uma parte importante dessa estranheza oferecida à curiosidade dos «povos civilizados» resultava do próprio processo colonial. Nativos semi-nus, pintados ou tatuados, falando línguas incompreensíveis, vivendo em palhotas e dançando seguindo o «ritmo do batuque», eram uma componente indispensável, por exemplo, em exposições coloniais - como a de Paris (1931) ou a do Porto (1934).

A chegada desses homens e mulheres às metrópoles constituía, assumidamente, uma excelente oportunidade para generalizar e «democratizar» a experiência do exótico. O povo agradecia penhorado a possibilidade de admirar as mamocas das pretinhas e até, quem sabe, a ferocidade domesticada de verdadeiros caçadores de cabeças. Bem sei que este contacto com o diferente não se circunscreveu aos nativos importados pelo colonialismo. De qualquer forma, o importante é perceber que tanto uma mulher barbuda, proveniente de uma qualquer província metropolitana, como um nativo do Império, cumpriam um papel muito semelhante. Ambos alimentaram o imaginário de várias gerações de homens e mulheres que a si mesmos se viam como "civilizados", mas, para lá disso, ambos podem ser vistos como despojos de um mundo em mudança. Um mundo que aspirava a uma apaziguadora conformação, que devia abranger tanto a disciplina do corpo como o modo de sentir, tanto a experiência da fé como a confiança numa «civilização» redentora.

O que foi que sobrou desse imaginário? Será que dispensámos definitivamente esse circo do bizarro e do monstruoso? E, se o fizemos, como podemos nós passar sem esse imaginário que tão claramente nos situa e define por relação aos que nos são estranhos? Coloco a questão de uma outra forma: se esse nosso fascínio pelo que está para lá das fronteiras do que somos tem realmente importância para a nossa definição identitária, de que forma foi substituída a exibição impudica de alteridade que encantou os nossos pais e avós? Qual o seu substituto funcional? Estou certo de que os media, pela revolução que imprimiram ao modo de ver e de evocar, são parte decisiva na resposta a essa questão. Podemos simplificar, falando de uma passagem do oral ao escrito - muito embora estejamos conscientes da insuficiência desse processo, nomeadamente se ele deixar de lado toda a espantosa multiplicação do que nos é oferecido ao olhar. Instrumentos como a fotografia, o cinema ou os videojogos, possuem a inequívoca capacidade de responder a essa fome de imaginário que hoje, tal como no passado, não dispensa da sua dieta a extravagante diferença que ao mesmo tempo nos seduz e ameaça.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

100 anos são muitos dias!



Claude Lévi-Strauss completa hoje 100 anos, pelo que fica demonstrado que não é só a realizar filmes aborrecidos que se chega a tão provecta idade. Como um blog não é um livro de efemérides nem sequer um apartado de alguma enciclopédia, não falarei aqui da figura nem propriamente do seu trabalho. Reterei apenas um aspecto (quem quiser saber mais é fácil googlear ou coisa assim...), exactamente a importância que Lévi-Strauss dedicou à diferença cultural e à sua preservação.
A sua ideia é fácil de entender mas nunca foi fácil de implementar: se quisermos entender o Homem na sua plenitude temos que o conhecer nas suas múltiplas expressões, pelo que nos devemos empenhar na compreensão das diferenças e na sua preservação. Daqui decorre uma conversa conhecida mas que nem por isso altera as práticas sociais e políticas: por cada cultura ou língua que desaparece, desaparece também uma parte daquilo que somos enquanto humanos. Pareceu-me uma boa maneira de lembrar o velho sábio: evocar este desejo de entender o outro e esta crença na nossa capacidade de o fazer. Ocorre-me também perspectivar os próximos 100 anos e neles que bom seria se, no plano estritamente individual, todos nós fizermos também um esforço para aceitar o outro tal-qual ele é. Coisa fácil? Nem tanto assim. Haveria que resistir a essa tentação de nos tomarmos como padrão e aprendermos a ver no que nos separa dos outros não uma ameaça ou um desafio mas uma oportunidade de nos enriquecermos.
Nota final: quando falo desta aceitação da diferença não estou a pensar apenas naqueles de que mais facilmente nos distinguimos - seja pela cor da pele ou origem social. Falo de algo mais amplo e omnipresente: o que nos distingue dos nossos próximos, dos companheiros no sentido próprio do termo, ou seja, aqueles com quem partilhamos o pão, mas também das pessoas com quem partilhamos o leito e a vida. É por aí, por esse desafio de proximidade feita de diferença, que o caminho deve começar.