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segunda-feira, 9 de março de 2009

Do Bem e do Mal


Salvador Dali





Ouso tentar abrir o meu próprio caminho
No qual o Bem será o que me agrade
Aquilo que não quiser, indiferente,
Aquilo que odeio, o Mal. Nada mais.


Ralph Waldo Emerson



Não conheço melhores palavras que estas para consubstanciar a expressão do divino em nós. Mesmo eu, ateu na habitualidade de todos os dias, me revejo nesta afirmação do divino pela medida humana. Fácil de confundir com uma proposta niilista, erra quem assim avaliar as palavras de Emerson. No atrevimento do nosso julgamento está, afinal, o juízo divino. Implica apenas a confiança em nós próprios para ousarmos caminhar sem a tutela dos velhos guias e da sua autoridade.

Um conhecido aforismo, também emersoniano, ajuda-nos a esclarecer esta ideia: «Tal como as orações são uma doença da vontade, assim os credos são uma doença da inteligência». Talvez não possamos viver sem orações ou credos, mas convém que compreendamos a ilusão que veste umas e cobre outros. O que me toca mais profundamente, porém, é ainda outra coisa. É a certeza sem mácula de quem se arroga o poder de decidir sobre o Bem e o Mal, a Virtude e o Pecado!

Vem isto a propósito da condenação de um aborto feito a uma criança de nove anos que fora violada pelo padrasto. Talvez a idade da menina fizesse deste caso notícia mas a verdade é que algo de mais extraordinário se interpôs trazendo este infeliz acontecimento para as páginas de jornais e ecrãs de televisão. O arcebispo de Recife, ao que parece secundado pelo Vaticano, não só condenou o acto como excomungou quem o decidiu e praticou. Quando aludo ao «acto» não me refiro à violação, que essa, ao que consta, nunca foi coisa demasiado estranha às vestes eclesiais, mas ao aborto. «Defesa da vida», justificou o prelado, «atentado às leis divinas», assegurou convicto.

Do que defendeu o arcebispo, é justo dizer que vozes de burro, ainda que paramentado, não chegam ao céu. Pudesse esse desabafo sossegar-nos! É que a Igreja tem um peso social e uma importância que tornam irrelevante qualquer desabafo conciliador. É neste ponto que as palavras de Emerson nos cativam. Elas têm o brilho dessa cintilação que o leitor sempre procura naquilo que lê: quem de entre nós, buscando apenas no seu íntimo, sem a sombra de doutrinas ou pregadores, não consegue perceber o lugar do Bem e do Mal nesta história da menina brasileira? Céptico como sou, dou por mim acreditando que essa deve ser a única manifestação de divino que realmente importa: aquela que encontramos em nós próprios.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Zoo humano

Hans Bellmer


As memórias são assim mesmo: guardamos algumas ciosamente, por vezes a tão bom recato que recusamos mesmo partilhá-las com quem quer que seja, enquanto outras, perdidas sem pena, nos visitam inesperadamente e sem que alguma razão verdadeiramente válida as tenha convocado. Sucedeu isso mesmo quando arrumava uma estante e deparei com um livro que há muito esquecera, Freaks, no qual é revelada uma curiosa colecção fotográfica de «aberrações humanas». Gigantes e anões, irmãos siameses, mulheres barbudas, hermafroditas e homens com cauda, entre muitos outros exemplos de humanas criaturas - a maior parte das quais ganhou a vida exibindo-se em feiras e circos – constituem o espólio recolhido pelo negociante de arte, Akimitsu Naruyama, e mostrado em Freaks.

Este livro, inesperadamente redescoberto, significou para mim dar uma trinca na madalena proustiana, salvo seja. Graças a ele reencontrei-me com uma das primeiras imagens de estranheza e fascínio de que consigo lembrar-me. Trata-se de uma memória de tal forma desbotada que se torna impossível distinguir as fronteiras entre aquilo que de facto vi e o que terá sido posteriormente acrescentado. Na cidade de província onde vivia chegou um dia, juntamente com outras atracções de feira, o «Gigante de Moçambique». Estou certo de que foi mais por curiosidade minha que por interesse próprio que meu pai me levou à tenda onde o «fenómeno» era exibido.

Julgo que se viveria então o começo dos anos 70, época em que atracções como aquela ainda agitavam o quotidiano das cidadezinhas de província. Não esqueço que vivíamos então num país esquisito, mais esquisito ainda do que o país em que hoje vivemos, mas ainda assim, olhando a esta distância, uma exibição como aquela talvez enfermasse já de um profundo anacronismo. De facto, os freaks do meu livro tiveram a sua época. Fizeram furor no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX mas desapareceram de cena tal como o Emplastro Leão ou o óleo de fígado de bacalhau. Sobraram todas estas fotos que agora olho, enquanto procuro, nos subterrâneos da memória, alguma imagem mental do «meu» gigante moçambicano. Vício de putativo e frustrado escritor, não posso deixar de pensar nas fantásticas possibilidades narrativas contidas naquelas vidas singulares. Acho que foi por esta razão, confessadamente interesseira, que procurei saber mais sobre aquele homem desmesurado que vi pela mão de meu pai. Num outro post falarei dele, mas por agora deixarei de lado esses quase dois metros e meio que lhe deram fama e sofrimento. É outra a questão que aqui me interessa.



«Vénus hotentote»


No início do século XIX uma jovem bosquímane de nádegas salientes, apelidada de «Vénus hotentote», fez furor na Europa, sendo exibida ao público ao lado de outros «fenómenos bizarros». A particularidade anatómica que fez dela objecto de curiosidade - tanto de cientistas quanto do público anónimo - era vista como característica da sua «raça», facto que, está bem de ver, confirmava alguns dos estereótipos mais correntes acerca da sexualidade desbragada dos selvagens. Muito embora fossem muitas as características e diversas as proveniências das «peças» expostas num autêntico zoo humano planetário, pode dizer-se que uma parte importante dessa estranheza oferecida à curiosidade dos «povos civilizados» resultava do próprio processo colonial. Nativos semi-nus, pintados ou tatuados, falando línguas incompreensíveis, vivendo em palhotas e dançando seguindo o «ritmo do batuque», eram uma componente indispensável, por exemplo, em exposições coloniais - como a de Paris (1931) ou a do Porto (1934).

A chegada desses homens e mulheres às metrópoles constituía, assumidamente, uma excelente oportunidade para generalizar e «democratizar» a experiência do exótico. O povo agradecia penhorado a possibilidade de admirar as mamocas das pretinhas e até, quem sabe, a ferocidade domesticada de verdadeiros caçadores de cabeças. Bem sei que este contacto com o diferente não se circunscreveu aos nativos importados pelo colonialismo. De qualquer forma, o importante é perceber que tanto uma mulher barbuda, proveniente de uma qualquer província metropolitana, como um nativo do Império, cumpriam um papel muito semelhante. Ambos alimentaram o imaginário de várias gerações de homens e mulheres que a si mesmos se viam como "civilizados", mas, para lá disso, ambos podem ser vistos como despojos de um mundo em mudança. Um mundo que aspirava a uma apaziguadora conformação, que devia abranger tanto a disciplina do corpo como o modo de sentir, tanto a experiência da fé como a confiança numa «civilização» redentora.

O que foi que sobrou desse imaginário? Será que dispensámos definitivamente esse circo do bizarro e do monstruoso? E, se o fizemos, como podemos nós passar sem esse imaginário que tão claramente nos situa e define por relação aos que nos são estranhos? Coloco a questão de uma outra forma: se esse nosso fascínio pelo que está para lá das fronteiras do que somos tem realmente importância para a nossa definição identitária, de que forma foi substituída a exibição impudica de alteridade que encantou os nossos pais e avós? Qual o seu substituto funcional? Estou certo de que os media, pela revolução que imprimiram ao modo de ver e de evocar, são parte decisiva na resposta a essa questão. Podemos simplificar, falando de uma passagem do oral ao escrito - muito embora estejamos conscientes da insuficiência desse processo, nomeadamente se ele deixar de lado toda a espantosa multiplicação do que nos é oferecido ao olhar. Instrumentos como a fotografia, o cinema ou os videojogos, possuem a inequívoca capacidade de responder a essa fome de imaginário que hoje, tal como no passado, não dispensa da sua dieta a extravagante diferença que ao mesmo tempo nos seduz e ameaça.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Da selva do desejo ao contrato redentor

Aldo Palazzolo

Um post recente suscitou comentários anormalmente abundantes para a modéstia deste blog. A eles volto, ao post e aos comentários, por nenhuma razão particular, a não ser a de despejar alguma da verborreia mental que sempre se forma depois de um almoço bem regado.
Um/a leitor/a anónimo/a, certamente que motivado/a pela nobre intenção de salvar a minha pobre alma condenada, quis partilhar comigo um longa (ex)citação. Não vejo nenhuma outra razão para que alguém que presumo não conhecer, uma vez que me trata por você, me tenha remetido tão longa prosa. Um missionário, por certo, ou então a alma imaculada da madre Teresa, que foi de Calcutá e quiçá ande agora pela Net assombrando retóricas mais ou menos desbragadas. O extracto citado pareceu-me apenas medianamente interessante, mas ainda assim agradeço penhorado a desinteressada dádiva. Bem haja!
Porquê esta mediania? Desde logo porque me parece que o autor parte de alguns pressupostos errados. Admito, com todo o fair play, que esta convicção, absolutamente pessoal, possa ser apenas um efeito do pós-almoço, mas estou absolutamente seguro que nada daquilo que o senhor diz se adequa ao que escrevi no post ou àquilo em que acredito. Por exemplo: eu, que não rejeito de forma alguma a minha parte animal, jamais recorreria à bicharada para justificar o que quer que fosse. Deus me livre e guarde! A natureza oferece-nos exemplos para tudo, mesmo para aquilo que nós nem sequer imaginamos que possa existir. Podemos até pôr de lado as coisas esquisitas, como a bicha-solitária, que apesar se solitária não deixa de pôr ovos aos biliões ou a valente fêmea louva-a-deus, que parece atingir o orgasmo arrancando a cabeça ao maridão. Deixemos tais excessos e consideremos apenas alguns “primos”, com quem partilhamos mais de 90% do código genético, os gorilas e os chimpanzés. Enquanto os primeiros acham por bem dar uma queca anual e arrumar assim a situação, os chimpanzés passam basicamente o tempo todo “naquilo”, saltando para cima de tudo o que se mexa. De qual destes casos estaremos mais próximos? De nenhum, posto que não somos gorilas nem chimpanzé mas seres humanos.
Mas esta não é a única questão que o texto levanta. Um outro problema é o da pouca importância dada ao tempo histórico. Substitui a sua complexidade por uma banalidade psicologizante: as mulheres, que se tornaram livres, são agora mais acessíveis como parceiras sexuais mas ao mesmo tempo mais ameaçadoras para o homem. Podia dizer-se de outra forma: as mulheres libertadas entopem milhões de sítios e blogs, num dilúvio de pornochachada revelador de freudianos recalcamentos dos machos ameaçados!! Ora, meus amigos, a falar verdade, tudo isto é treta superficial, com a qual não vale a pena perder grande tempo – sobretudo este tempo de qualidade que é o do pós-almoço bem regado…
Vejamos mais: o autor do ensaio citado mostra-se ressentido pela forma diferente com que, no seu juízo, se cumprem ou não cumprem contratos e compromissos. Argumenta que nos esforçamos por cumpri-los ao nível comercial ou profissional mas que não há nenhum pudor em desrespeitar aqueles que dizem respeitos aos afectos. Será porque nuns se paga multa e noutros não? Nã… deve haver outras razões, mas as que o escriba revela não passam, uma vez mais, da banal psicologia da alcova. Atrevo-me a dizer que neste ponto o autor parece um daqueles malucos que quando apontamos a lua só vê o dedo! Viver em sociedade, como há já tantos anos Rousseau percebeu, é viver num regime de contrato social. São múltiplas as dimensões implicadas neste regime de contrato e a mim parece-me bem que também os afectos se regulem por este princípio, seja ele formalizado por escrito ou apenas assumido oralmente. Qual é então o problema? Onde está o dedo e onde a lua?
O problema é o mesmo que se manifesta em todos os liberalismos, sejam eles económicos, políticos ou afectivos. É um problema de falsos pressupostos, concretamente o pressuposto de que todas as partes envolvidas se equivalem, todas jogam com as mesmas cartas e todas têm o mesmo conhecimento do jogo. Não é nunca isto que acontece. O poder existe disperso por todo o tecido social, mas daí não decorre que a sua distribuição seja igual. Ao contrário, distribui-se desigualmente e essa desigualdade de base determina todo o jogo social. Perguntarão: mas a malta não pode conversar e chegar a um consenso? Claro que pode, mas isso não obsta à desigualdade das partes. É que tudo nos distingue, até mesmo no consenso: o capital social e simbólico, os marcadores de género, a capacidade de argumentação, a experiência de negociador, etc. Ou seja, para o dizer de forma clara, os contratos, tanto os que assinamos no banco como os que estabelecemos livremente com o nosso par, podem e devem ser livremente assumidos mas isso não obsta a que um eventual carácter leonino os caracterize!
É curioso como um texto que começa por censurar o abuso de exemplos da fauna para legitimar aquilo a que chama “promiscuidade” recorra depois a um grosseiro biologismo. Tudo se reduz à ideia do macho-predador e da fémea-presa. Lugares comuns, como a incapacidade do homem expor os seus sentimentos ou a dicotomia entre dama-esposa e puta-amante, são, por isso, expressão de uma retórica desconchavada, própria de uma personagem queirosiana.
Poderá então sair-se disto? Deste desconsolo que parece condenar-nos a um desentendimento mais ou menos permanente? Por acaso eu acho que sim, mas vou deixar a revelação do segredo para outra hora. Afinal, a longa mão de Baco ampara-nos mas não nos ampara para sempre. Fico à espera de outros almoços e outros eflúvios licores. Direi apenas que esse insensato desejo de vermos o outro como extensão de nós, esse pecado que nos conduz aos mais ridículos actos e desvarios, é uma espécie de monstro sombrio que guia os nossos passos e acções. É na liberdade que nos encontramos, não na fantasia da complementaridade e simetria com que constantemente nos acenam.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Praxe Revisitada

Edvard Munch


No ano passado escrevi sobre a praxe e agora que ela nos revisita com a exuberância costumeira, decidi voltar ao tema. Do que escrevi no ano passado - e que está aí abaixo blogado para quem tiver nisso alguma curiosidade – não retiraria nada de essencial. Assim sendo, perguntarão, porquê voltar à questão? Por duas razões fundamentais.
Em primeiro lugar por um impulso pedagógico, vício d’ofício, se quiserem. Quando os pedagogos eram um pouco menos pedabobos, costumava dizer-se que a repetição era a mãe de toda a pedagogia! Pois então aí está a primeira razão: repetir cansa, mas mesmo que efeito não tenha, alivia quem repete.
A segunda razão é de outra natureza. Prende-se com uma ideia que circula e vai fazendo caminho: «Este ano a praxe está diferente!» Para os defensores desta tese, a diferença notar-se ia numa maior brandura e tolerância e num vozeado menos parvo e grosseiro. Um novo caminho que se abre; um amanhã que canta; uma academia mais academia desponta, tímida mas segura, no meio do tumulto. Não são poucos os subscritores destas ideias, o que se calhar nem é mau, pois gente de fé é o que mais falta nos faz nos dias que vão correndo. Já vi títulos de jornal garantindo a mudança e tenho colegas que a asseveram com toda a seriedade e convicção. Até a reitoria contribuiu para o jubiloso clima quando, finalmente, se decidiu a mexer uma palha – foi só uma palhinha, é verdade, mas mexeu-a!
Para ser justo, devo reconhecer que eu próprio tenho ouvido menos urros e uivos, talvez menos palavrões e alarvidades. Ora, mais palavrão menos palavrão, o que é que isso vem a ser para as sólidas gentes do norte?! Fosse eu poeta ou intelectual metido a besta e faria a pergunta sacramental: «Não estaremos nós a tomar a nuvem por Juno?». Ou então, para gente menos versada em mitologia clássica, será que não são demasiados foguetes para tão pouca festa? Certo é que a reitoria fez peito: não tolera abusos e faz de cada homem e mulher, docente ou funcionário, impolutos vigilantes das regras (mas que regras?) que devem reger a praxe. Desconheço se ouve denúncia de abusos e, se as houve, que consequências terão. É razoável pensar que poucas ou nenhumas. Mas em verdade vos digo que esse nem é o ponto essencial.
Nada do que verdadeiramente conta mudou na praxe. A sua estética continua a ser exactamente a mesma e deve aqui ficar claro que ela é em si mesmo irreformável. Extinguir a lógica de submissão cega e acrítica que formata a praxe significaria, como é bom de ver, matar aquele ritual circense de enxovalho tal como o conhecemos. É verdade que os tempos correm favoráveis a essa estética sinistra, do mesmo modo que tempos houve em o sentido dominante era o contrário. Já se sabe, mudam-se os tempos…
A praxe é um reflexo de todos nós e do modo como aceitamos viver, mas é também uma lição e um ensinamento. Provavelmente uma lição mais poderosa e duradoura do que todas quantas nós consigamos transmitir aos nossos alunos. Uma lição que pode sintetizar-se no belo título que Fassbinder escolheu para um filme: «O Direito do Mais Forte à Liberdade». É ou não é esse o princípio fundamental para uma vida cordata e de sucesso? Aprender a obedecer… e aproveitar para mandar sempre que a ocasião se proporcione. Não importa em quem mandamos nem porque o fazemos; o que importa é o poder do mando e a vertigem de ser obedecido. Por isso a praxe não é um caso de polícia, é muito mais do que isso. E já que falei de cinema com outro filme acabo. Falo de Bergman e d’«O Ovo da Serpente», obra que nos mostra como o essencial do terrível mal que viria a ser o nazismo se mostrava já, muito anos antes, de uma forma tão mansa que quase parecia benigna. Talvez seja isso que anda por aí à solta, não só na praxe, bem entendido, mas em tantas coisas que vemos disfarçadas e escondidas pela fina membrana de um ovo em gestação.