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terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Brincadeira de criança


Diego Rivera


Como sempre sucedia, entrei no quarto como num santuário. Fora ali que passara os melhores momentos da minha vida, infinitas tardes de pura felicidade, memórias que não posso nem quero apagar. Eu e o meu avô, sempre os dois, parceiros inseparáveis, companheiros de brincadeiras, cúmplices absolutos que a diferença de idade nunca colocou em causa. Como pude sobreviver àquela morte, à enorme perda que de tão esperada se tornou irreal? Nada há de que me arrependa. Cumpri a parte que me coube, e esta parte, tão dolorosa quanto feliz, não pode ser mais que conservar viva a perfeição do passado. Sei que não volta, esse passado. Não sou tolo, bem sei que em tudo o que faço pesam, em partes iguais, a ilusão e a memória. E isso que me importa? Neste quarto em que sempre me recolho, mantive prisioneiras as sombras da minha infância. Entro nele e volto ao que fui. Ao que fomos. Só que agora é um lugar apenas meu, no qual ninguém mais cabe ou virá alguma vez a caber. Um lugar onde, sempre que posso e me deixam, reencontro o meu velho companheiro de brincadeiras.
Era exactamente assim que nos sentávamos, à maneira dos índios, como garantia o meu avô, pernas cruzadas e mãos sobre os joelhos, um frente ao outro, sorrisos e olhares cruzados enquanto decidíamos o que fazer. Esta caixa em folha-de-flandres, com os desenhos de cores esbatidas pelo tempo, já estava aqui naquela altura. Claro que tive que lhe mudar o conteúdo, mas essa foi apenas uma operação indispensável para que tudo pudesse aproximar-se ao que sempre fora. Há de novo ilusão nisto que digo, bem o sei, mas que seria de mim sem ela, sem a força e o ânimo que só a fantasia me dá? Abro a caixa e faço correr pelos dedos as peças alvacentas. De cada vez que lhes toco parecem-me mais leves, como fossem secando por dentro, dessa forma lhe aprimorando a forma, talvez adequando-a à função que lhes atribuo.
Espalho a meus pés, no oleado gasto e já sem cor, as peças redondas, anguladas por espigões ratados mas ainda nítidos. Devo agora, com duas peças compridas e levemente curvas, agarrar as redondas e devolve-las à caixa que as guarda. São essas as regras: claras e precisas como sempre foi nosso hábito. Não sei que técnica usaria se fosse ainda criança, de que forma me guiariam as palavras de meu avô, mas agora colo-as as peças compridas aos dedos como se fosse dois pauzinhos de um restaurante chinês. Faço delas uma extensão dos meus dedos, dou-lhes um jeito de pinça, de forma a fazer entrar uma delas no buraco irregular das peças redondas e só quando a sinto bem presa é que a levanto e arrumo na caixa. Jogo nenhum se faz sem regras e este, criação minha em intenção do meu velho companheiro, não poderia ser diferente. Regra fundamental: não posso bulir, por pouco que seja, em peça diferente daquela que pretendo capturar. O mínimo erro nesta condição obrigar-me-ia a recomeçar tudo do início. A concentração é essencial. Concentração e cautela, como, estou certo, o meu avô me recomendaria, caso fosse outra a condição da sua participação neste jogo. Mãos firmes, gestos precisos, associados à falsa lentidão de um felino.
Gradualmente o jogo torna-se mais fácil. Conforme vou avançando e deslindando o acidental emaranhado de peças, como se desatasse os nós de uma confusa meada de lã colorida, define-se com limpidez o caminho a prosseguir. Porém, a clarificação do desenho e da tarefa cobra fatalmente o seu preço. A mão começa a suar e um torpor ingovernável ameaça fazer-me perder a concentração. As peças, rígidas pinças deformadas, colam-se aos dedos húmidos e chegam a desobedecer-me até nos mais fáceis movimentos. E depois, para lá disso, sempre me acontece o mesmo. Devia prevê-lo e evitá-lo, mas nunca consigo. Sempre deixo para o fim o mais árduo emaranhado de peças, como se à vista da meta final fizesse questão de enfrentar a enormidade de uma escarpa que importa vencer. Fecho os olhos procurando reencontrar a concentração. Sei que encontrei e venci piores desafios. Vendo bem, não é nada de mais o que me resta. Quatro peças singulares, encavalitadas umas nas outras, fundidos os ângulos agudos com os buracos que as abrem a meio. Nessa evidente metáfora que é a conjunção do côncavo com o convexo, reside a maior das dificuldades. A minha mão treme agora visivelmente no esforço de desmontar o novelo. Recuo, respiro fundo e volto a tentar, desta vez de forma ainda mais decidida, mas aconteceu o desastre que temia. Não foi preciso mais que um pequeno toque, uma coisa de nada, e todo o montículo se abateu quase sem ruído.
Que diria meu avô? Quase posso ouvi-lo, recomendando paciência e determinação. Sábios ensinamentos, esse como outros, e é com eles na mente que volto a lançar as peças redondas disposto a recomeçar o jogo. Paciência sem determinação é moleza, mas da determinação sem paciência também não resulta nada de bom. Era assim que meu avô falava, com a diferença de usar palavras antigas e sábias, palavras que não esqueci, posso jurá-lo, mas que nem sempre me ocorrem. Como agora mesmo sucede. Tampouco é isso que neste momento importa. O que a mim mesmo devo exigir é absoluta concentração. O cumprimento desta tarefa a isso obriga. Recomeço, portanto, a juntar peça atrás de peça e teria, sem dúvida, chegado ao fim, não fosse ouvir de repente a chave entrando na fechadura. É sempre desta forma que me apercebo da chegada da minha esposa, e ela, por muito amor que lhe tenha, não tem lugar neste mundo que é só meu. Sem pressa, sabendo com precisão de que tempo disponho, pego em todos os ossinhos do meu avô e arrumo-os na velha caixa de folha lacada. Só depois de me assegurar de que nada ficou fora do seu exacto lugar, é que saio do quarto, sorridente e apaixonado, para saudar a minha amada esposa.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Amor-humor

Martin Van Maele



Abençoado modernismo brasileiro, que não só nos deu a conhecer o impagável Macunaíma e nos deslumbrou com as telas de Tarsila do Amaral como nos legou também a fantástica sabedoria do amor contida no célebre poema de Oswald de Andrade:


Amor
Humor



Não sei se a literatura em língua portuguesa tem algum poema mais curto que este mas estou certo de que poucos se lhe igualam em assertividade e inspiração.
Prova provada de que, pelo menos neste campo, o tamanho não é realmente importante, o poema de Oswald contém todo um projecto de vida e uma inspiração de consumação existencial: fazer sorrir o nosso par! Claro que não é apenas isso, pois o amor não é uma comédia de costumes. Pode até dizer-se que o mais decisivo se encontra noutro lugar do poema - sim, eu sei que é estranho, mas mesmo num poema tão pequenino podemos encontrar recantos escondidos! Falo da dessacralização do amor, dessa arremetida contra a certeza da dor que parece prefigurar cada relação. Amar é sofrer de amor. Sofremos pela dúvida, mas se não a tivermos sofremos pela convicção de que a certeza não pode durar sempre. Podemos também sofrer pela violência da paixão muito embora não deixemos de sofrer quando essa mesma paixão nos ignora e nos passa ao lado. Afinal, talvez o sofrimento seja um alimento indispensável para a alma mas se assim é que o riso seja o digestivo para tão pesado alimento! Amor/Humor? Sem dúvida que sim! Antes isso que um rebuscado lirismo, daqueles que sempre dão mau resultado!
É mentira o que digo? Consideremos então o que diz o vate:

Amor é fogo que arde sem se ver
(Diacho, bem sabemos que o homem tinha só um olho operacional, mas ainda assim parece-me incrível que não tenha visto o que queima o olhar! «Fogo que arde sem se ver»?! Como pode alguém que amou de verdade não ter visto a sua amada em chama viva? Confesso que não entendo, mas a burrice será realmente minha?).

É ferida que dói e não se sente
(Ai não que não se sente! Gajo insensível, heim! Deve ser por estas e por outras que se criou essa ideia peregrina de que o homem apenas sente e pensa pela pila! O caraças: a gente sente e vê a ferida, mexemos até nela e como por vezes temos ainda os dedos sujos com as cinzas dos amores que nos feriram acabamos por agravar dor e ferida...).

É um contentamento descontente
(Com esta é que eu me passo de vez! «Contentamento descontente»? É este o ponto; é este o mal! Tal a demência de quem assim ama que já nem a alegria sente como alegria. Contentamento descontente não é bem ficar trombudo depois do acto, mas no mínimo é ficar seráfico e virar costas ao diabinho que nos puxa o sorriso alvar de quem se lambuzou todo de chocolate e menta e está com vontade de voltar ao pote!).

É dor que desatina sem doer
(Quem desatinaria seria eu se acaso continuasse com este exercício de olhar o poeta no seu desvario! Melhor ficar por aqui, até porque para ilustração já basta assim!).

Martin Van Maele

Num conhecido ensaio, Henri Bergson defende que "o riso não tem inimigo maior do que a emoção". Para ele, "numa sociedade de inteligências puras provavelmente deixaríamos de chorar, mas talvez continuassemos a rir; ao passo que um mundo de almas invariavelmente sensíveis, afinadas em uníssono pela vida, onde todo e qualquer acontecimento se prolongasse numa ressonância sentimental, não conheceria nem compreenderia o riso".
Se Bergson o diz quem sou eu para desdizer? Mas que sucede quando amor se conjuga com humor, como no brilhante achado de Oswald de Andrade?



Amor

Humor


Casamento espúrio, acham mesmo que é? Eu não acho. Para além de rimarem, amor e humor têm em comum o facto de só poderem ser feitos acompanhados. É claro que podemos ter prazer sozinhos e rir sem que ninguém nos acompanhe, mas mesmo nesses casos há uma dimensão evocativa que implica um outro. E depois há ainda o valor facial das palavras, a sua história e espessura. Todos nós sabemos (pelo menos assim espero...) como o amor carnal, esse tesão que nos devora e consome, se transmuta em humidade - seja ela suor, saliva ou tudo o mais. Ora bem, é ou não verdade que essa humidade tem a sua raiz em húmus, que não é senão a matriz latina da palavra humor?! E atrever-se-á alguém a declarar que o amor, na sua expressão vibrante de sexo consolador e festivo, não melhora o nosso estado de alma? Não há como negar: alegria e bom humor têm uma relação umbilical com o prazer e este, mesmo recusando tomar a parte pelo todo, tem no sexo um importante pilar.

Mas tem ainda uma outra dimensão nesse feliz casamento entre amor e humor. Já o referi e com ele finalizo: a possibilidade de dessacralizar o afecto sem que a paixão se perca. Sempre temos um problema quando falamos de amor: há um excesso de sentido para um vocabulário demasiado limitado. O amor pode ser muitas e variadas coisas e as palavras de que dispomos para o caracterizar são claramente insuficientes. Ainda que esteja longe de ser a única razão, é também por isto que os desacertos afectivos são tão inevitáveis. São esses desacertos, sejam eles pontuais ou estruturais, que fazem a nossa história afectiva e essa história, que constantemente reescrevemos, soa sempre melhor quando nos servimos do humor para a colorir. Dói menos assim e, se querem mesmo saber, eu até acho que fica mais verdadeira quando a contamos de modo a que dela possamos sorrir. Ou rir a bandeiras despregadas... depende dos casos e dos acasos.




Martin Van Maele

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Antes asno que me carregue...

Robert Mapplethorpe



Uma muito querida amiga, reflectindo sobre as agruras de infidelidade, sublinhava há uns dias a inconveniência dos amores com pessoas demasiado interessantes. Inteligente como é (note-se que, por definição, todas as minhas amigas primam pela inteligência), achou por bem caracterizar a situação a partir de um locus masculino. Um homem que ande com uma mulher muito bonita, dizia ela, tem sempre o problema de saber que inúmeros outros homens a desejam e se esse conhecimento não gera insegurança ou incerteza, alimenta, pelo menos, o receio de a perder. Julgo que não estou a desvirtuar o seu pensamento se disser que o «bonito» pode aqui ser estendido a outros atributos como o charme ou a inteligência. De qualquer forma, independentemente do factor distintivo ser a inteligência ou a beleza física, o argumento não podia ser mais claro. Ainda que sem certezas definitivas sobre a resposta ao dilema, a minha amiga ponderava se não seria preferível uma relação com alguém medianamente interessante e fiável do que com alguém verdadeiramente interessante mas mais susceptível às tentações. Cá para mim, bonitos ou feios, inteligentes ou broncos, ninguém é de ferro. Ou seja, a fiabilidade é uma variável independente, pelo que a argumentação me parece ter um efeito mais retórico que clarificador.
Foi por isso, e também porque gosto de imagens fortes, que lhe disse logo na cara: «O que tu me estás a dizer é que preferes asno que te carregue a cavalo que te derrube». Na verdade não era bem isso. Ela não queria um burro-burro nem tampouco um feio-feio, como rapidamente percebi pela sua manifestação de desagrado. É claro que eu, atreito como ando a mal-entendidos, me apressei a contemporizar. Declarei de mão no peito que nada me move contra os simpáticos asininos e menos ainda contra os feios. Depois, convencido que um pouco de erudição fica bem em qualquer conversa, evoquei Boris Vian, escritor que muito me agrada, para assegurar que jamais me passaria pela cabeça fazer do título do seu conhecido policial, Morte Aos Feios, um slogan evocativo e menos ainda um princípio de vida. Como isso não chegou para a tranquilizar, procurei mostrar-lhe que a beleza vale bem pouco e que a culpa desse baixo valor não tem sequer a ver com o sossego que nos é roubado quando o nosso par é demasiado interessante. A beleza, quando muito, alimenta o ego mas deixa o corpo à míngua, ou seja, como diria o nosso inestimável povo, «cantoria sem comedoria é gaita que não assobia». Portanto, teima de cigarra que não aprende com velhas fábulas. Percebendo no seu olhar a sombra evidente do cepticismo, fiz-lhe ver que muita e diversa gente percebera esta verdade na pele. Lembras-te do inspirado Allen Ginsberg e da pergunta que formulou no doutrinário poema América: «Quando poderei eu entrar no supermercado e comprar tudo o que preciso com a minha beleza?». Ela lembrava-se e desconfia, tal como eu, que também neste caso a beleza de nada valeu: por certo o ilustre poeta morreu sem se livrar de pagar as contas da mercearia.
Bem sei que com esta conversa me desvio do ponto essencial da conversa e da inquietação da minha amiga. O ponto fundamental é o do equilíbrio entre razão e paixão. Ela bem o sabe e por muito que queira ser possuída pela razão, há sempre um pedacinho irredutível dela mesma que lhe prega uma rasteira e a atira para os braços da paixão. É por isso que evocar um «ponto de equilíbrio» é só uma forma de falar. Digamos que é uma espécie de aspiração apaziguadora ou uma promessa de serenidade. Poder-se-á dizer que um compromisso entre o burro e o cavalo? Hummm... talvez não, posto que os hibridismos funcionam mal neste delicado campo dos afectos. A não ser que a proposta de compromisso se manifeste numa alimária mitológica: o unicórnio! Belo animal, sem dúvida - além de sugestivamente fálico!
Por tudo isto, em verdade te digo: façamos sem hesitação o caminho que nos apetece. Quanto aos trilhos que ficaram para trás, para esses nem vale a pena olhar, pois que de estátuas de sal já todos temos a nossa conta. Dizendo o mesmo de outra forma: burro, alazão ou unicórnio, que se funda montada e montador e assim, nesses preparos, que ambos percorram caminhos capazes de os encantar.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Remington




Christian Coigny


Com a solenidade que há muito encenara escreveu as derradeiras letras: «FIM». Finalmente aquelas letras, conjugação de astros no horóscopo prometido. Colocou ambas as mãos na pilha de papel dedilhado a máquina de escrever e evocou aqueles longos meses de penoso trabalho. Lançou a baforada cinzenta que retivera nos pulmões sobre as teclas marmóreas e ficou a ver como o fumo as envolvia. Adorava cenários íntimos e decadentes. A virtude do ícone na era da informática! Que outra razão para insistir em escrever numa velha, velhíssima, Remington? Queria para si uma imagem tão forte como aquele aço temperado - Remington misturando-se com o seu nome, a máquina como extensão do corpo, os dedos precisos acariciando as teclas com ternura de amante.
Viver num cenário! Fascinava-o a ideia, vendo nela um vislumbre de perfeição. Bem sabia que o cenário é apenas a parte que deixamos ver e queremos mostrar, caminho indispensável contornando a verdade. Era cenário a batida compassada das teclas e a imperfeição das letras pela usura do chumbo após tantos anos de uso. Por exemplo, a cabecinha do a como testa partida ao meio, ou o x que parecia querer imitar o y. Imperfeições que eram sinais, manchas de sublime humanidade na obra que acabara de escrever. «Breves imperfeições para realçar um sublime amor». Anotou-o a frase no canto de uma página. Não se esqueceria de a usar quando chegassem as entrevistas que lhe dariam o merecido reconhecimento.
Caminhou até ao quarto pensando no sucesso e no modo como iria lidar com ele. Nada que o preocupasse verdadeiramente. Aquela escrita sofrida não o impedira de se preparar para o êxito. Antecipava mesmo a amargura que o sucesso transporta consigo. Tudo escrito nas estrelas com esse mesmo chumbo, cansando mas indelével, dos caracteres imperfeitos: fortuna e perda, sorte e azar, fita bicolor correndo na velha Remington, continuamente batida até que a tinta se esgote. Que outra coisa pode contar mais que a oscilação do eterno pêndulo? Que virtude acima da capacidade de descrever o encanto que nos arrebata e a tragédia que nos destrói? A tinta espirrada no papel, alinhando palavras letra a letra, até ao momento em que a magia se suspende e o chumbo bate no papel sem o imprimir. Também aí corpo e máquina como um só. A dor dos momentos vazios em que também ele ficava em branco, exactamente como o papel correndo na pesada Remington sem fita. Era nessas ocasiões, nesse mergulho no imenso deserto branco, que mais precisava dela. Da sua voz e do seu olhar. Palavra e gesto numa harmonia que o tranquilizava quando lhe dizia: «As palavras vão continuar a crescer. Não te inquietes. Por vezes há momentos em que tudo morre para logo renascer mais forte». Só mesmo ela poderia dizer algo que se ajustava de forma tão perfeita ao seu impúdico desejo de querer ser outro a cada dia. Morte e renascimento, ciclo perpétuo de mil vidas atravessadas numa só, articuladas todas elas pelo ritmo das palavras que flúem e se retraem.
Deitou-se ao lado da mulher com vontade de a abanar ternamente para lhe contar que finalmente acabara. Que a fiel Remington escrevera as derradeiras letras e que aquele «FIM» batido com raiva era um compromisso de mudança. Dizer-lhe que ele próprio se esgotara e sabia que a esgotara a ela, mas que agora, fim de ciclo, tudo recomeçaria. Morte e renascimento. Quis acordá-la e falar-lhe de tudo isto, mostrar-lhe como o horizonte se desanuviara e enchera de promessas. Tocou-a levemente, quase a medo, e achou-a fria, distante, quase sopro gélido saindo daquele corpo em profundo repouso. Corpo exaurido, gasto, consumido no desvairado processo de traduzir na palavra o louco amor que os unia. Fora isso mesmo que ele fizera: em cada tecla batida na velha máquina, em cada palavra composta, um pedaço daquele amor. Súplicas, desejos, esperanças, mesmo os beijos que ficaram suspensos entre os lábios e o papel. Aquele amontoado de folhas dactilografadas era a sua obra e a alma dela.
Sempre soube o risco que corria, mas haverá outra forma de mostrar o amor a quem nunca o viveu? O amor feito palavra, não o retrato falado de um amor. Uma essência arrancada gota a gota do mais profundo esconderijo do amante para deleite e instrução dos demais. Párias, desapaixonados, infiéis, futuros amantes… tanta gente esperando a sua obra! Ali estava ela – e o homem, de novo de pé, punha a sua mão cansada sobre as folhas como se avaliasse o resultado do empreendimento. «O mistério da transmutação», sussurrou repetidamente. O corpo e a alma de tal forma vertidos para o papel que bastaria amassá-lo para dele escorrerem mel e lágrimas. Beleza e sofrimento, criação e morte.
Este foi o momento preciso e irrepetível em que o homem percebeu a perda. Tocou no ombro da mulher e não sentiu nem o calor que desejava nem o frio que temia. Apenas uma moleza sem vida, invólucro vazio testemunhando a perfeição da sua obra. Tinham sido os seus dedos a transformar aquela vida em palavras ditadas febrilmente à velha Remington. Gota a gota, quase sem dor, conseguira aprisionar na escrita toda a alma dela. Não o sangue mas a alma - invisível, sem substância, pingando a cada batida das teclas, com ela se esvaindo o amor mas apenas para renascer num lugar sem tempo, finalmente eternizado em palavras vivas.
O homem retirou a mão do ombro da mulher e colou-se a ela. Sentia agora um frio tão intenso como se abraçasse uma estátua de gelo. «O mistério da transmutação», repetiu. «Ao mistério da transmutação esta morte por expiar». Uma coisa valendo a outra. À honra o castigo; ao assombro de quem lê a dor de quem escreve. Deixando a mulher, o homem voltou à máquina de escrever. Acertou o papel branco no cilindro e estalou os dedos. Um prefácio! Sim, um bom prefácio poderia redimi-lo. Sorriu ao escrever. Sabia que bastaria uma parte da sua alma vertida no papel para apaziguar a justa censura das almas alheias.


Gian Lorenzo Bernini

terça-feira, 28 de outubro de 2008

A nova ordem mundial do desejo!!

Balthus

Dizem-me que a convulsão e o arrebatamento dos corpos e dos instintos são próprios dos grandes finais. Asseguram-me que à morte dos grandes impérios sempre se associou uma espécie de falência de valores e certezas e que disso resultam múltiplas consequências. A ser assim, o declínio do império americano (abençoado seja o declínio, não o império…) será inevitavelmente acompanhado por uma série de desastres & catástrofes & bíblicas punições mas também por uma espécie de reinvenção do que somos através dos excessos. Dizendo de outro modo: para lá da perda do carro, da casa e da reforma, adivinha-se o regresso de algumas das extravagâncias que assinalaram a debacle de antigos impérios. Para ser ainda mais claro: podemos perder tudo o que disse e mais ainda, mas apaziguaremos a desgraça em orgias de proporções cósmicas! Dirão os mais apressados: lá está ele a confundir os seus mais destravados desejos com a dura realidade histórica! Juro que não. Desde logo porque falo de orgia em sentido amplo, como, aliás, teria que ser, já que lhe atribuo essa proporção cósmica. Mas a certeza de que não me engano reside noutro detalhe: é que esse estado orgástico há muito que começou e a ele, já hoje, poucos de nós escapamos.
Podia armar-me em chato e falar das orgias consumistas e de como o mundo inteiro se verga à sua lógica e despudor. Porém, como nesta conversa convém que o pé não vá além do chinelo, focar-me-ei nessa convulsão de corpos e desejos a que aludi (grande surpresa, não é?!). Habituado ao empírico por dever de ofício, não quero falar aereamente nem fazer de ideias superficiais matéria de tese. Ater-me-ei, rigorosamente, ao que observo da janela em que me debruço. A minha amiga Sofia confidenciava-me há dias o seu desejo de viver um amor simples. Olhei-a com espanto. Prisioneira habitual de indecisos amores teria ela encontrado a Verdadeira Luz? Precipitado como sou, pensei logo na velha fantasia de um amor e uma cabana, ou então, mais prosaicamente, nela e no seu rapaz, mão com mão frente à lareira, olhando na TV, embevecidos, a novela da moda ou uma comédia romântica. Do alto do seu metro e oitenta (saltos incluídos), olhos verdes e levemente estrábicos arregalados, depressa me esclareceu. Que não era nada disso. Que um amor simples podia incluir tudo (sublinhou o “tudo” abrindo os braços), desde que houvesse cumplicidade e partilha entre os dois. «Festarolas a três, quatro ou mais? Colchões de água e mergulhos em motéis em múltipla companhia?», perguntei eu ingenuamente. «Pois claro!», garantiu, com o olho ainda mais arregalado de genuíno espanto.
É este o meu ponto! Não há mais lugar à tranquilidade conubial de outrora. Conheço a imediata objecção: vendo bem nunca existiu essa tranquilidade, pois com uma facadinha aqui e outra ali quase sempre havia mais que dois no tálamo consagrado dos esposais. Isto é certo, mas admitam, caros leitores, que entre o que não se sabe, ou sabendo não se assume, e o que passou a fazer parte dos acordos do casal vai uma grande distância. Até que bate certo: deve ser a distância entre uma civilização no seu auge e a sua queda iminente. Há uma outra objecção de peso a que importa responder. Dir-me-ão que uma andorinha não faz a Primavera e que a Sofia é a Sofia, excelente moça a quem, eventualmente, os amores indefinidos terão toldado o sentido. Errado uma vez mais. Basta a gente passarinhar pela net, visitar sites de encontros ou conversar com desconhecidos para percebermos que a sinistra mancha do delicioso pecado alastra desgovernada. Bem sei que convém distinguir entre fantasia e realidade, mas o certo é que bastam dois minutos de conversa para que as todas as possibilidades eróticas menos convencionais se soltem no discurso. «Ménage a trois, já experimentaste?», «Clube de swing, já foste?», «Acreditas que a minha última queca foi numa cabina telefónica em plena Baixa?» Juro que é este o tom dominante, de tal forma que só nos resta proclamar o fim de império e brindar ao que aí vem.


Balthus


A esta sede de experimentação (leia-se vontade de rebaldaria…) associa-se uma logística cada vez mais sofisticada. A Sofia, ela mesma, já mostrou interesse numa máquina cheia de correias e alavancas que um amigo meu inventou. Mas também aqui não é só ela. Haverá ainda quem use um simples preservativo convencional? Já não! Agora têm que ser estriados, coloridos, com sabores, vibrantes, comichosos… eu sei lá! Também os consoladores nunca estiveram tão na berra. Vendem-se como pãezinhos e não há ninguém que se possa lamentar de não encontrar um a seu gosto – tamanho, forma, cor e minudência técnica adequada à fantasia de cada um/a. Toda a gente pode realizar fantasias pagando pouco. Ou nada. Chega a ser preocupante para quem gosta de coisas simples. Por exemplo, atreva-se alguma miss a ir para um primeiro encontro com uma daquelas cuecas confortáveis, de algodão e gola alta! Tenho a impressão que o parceiro, obnubilado pelos fantasiosos tempos que vivemos, a confundirá com alguma madre abadessa e fugirá dali a sete pés!
Poremos fim ao império ianque celebrando essa tal orgia de proporções cósmicas. Fim de um ciclo e nascimento do outro. As filosofias orientais não andam assim tão longe deste enunciado, só que dispensam os acessórios, os motéis e a internet. Seja como for, há-de ser a energia libertada por tão participado processo que nos redimirá. No novo ciclo logo virão causticas regras de contenção e pudor. Por isso, aproveitemos agora que o tempo urge e sempre ficaremos com a medalha de bons revolucionários para mostrar aos netinhos!

Balthus

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Jogo duplo

René Magritte



Apertou o papel na mão fechada até sentir que os vincos lhe magoavam a carne e só quando se assegurou de que ninguém a olhava ou percebera o seu gesto, se atreveu a lê-lo. «Estarei no bar Gabriel e os Anjos hoje às 11 horas. Se fores capaz de me identificar, serei teu esta noite. Leva as asas para voarmos juntos». Só isto, nada mais no pedaço de papel cuidadosamente dobrado que encontrara ali, entalado na almofada daquela cadeira anónima da pastelaria onde ia cada manhã.
Era uma daquelas mulheres discretas, cuja beleza jamais se revela ao primeiro olhar. Uma daquelas belezas escondidas e reservadas, terreno conquistado e colonizado pelo companheiro de muitos anos. Um daqueles casos em que a beleza dos começos se perde irremediavelmente, da mesma forma inevitável que as rugas substituem a macieza da pele ou os cabelos brancos roubam o brilho ao cabelo com que atravessamos metade da vida. Esta mulher estava no ponto exacto em que tais efeitos se tornam uma realidade inescapável. Sem ter consciência disso, estava num lugar de fronteira, balouçava na linha invisível que separa redenção e perda – lugares tão difusos e cambiantes que raramente temos a certeza de qual o lado da fronteira que cabe a um e a outro.
Ela, que sempre fora fiel e feliz com o amor que escolhera, escondeu o papel entre as mãos unidas e levou-as à altura do peito quase com ternura. Demorou alguns segundos aquele pasmo melancólico. Quase de imediato se sentiu ridícula e desabou numa gargalhada nervosa. Como pudera pensar, sequer por momentos, que aquele convite lhe era dirigido? Sabia que havia gente que se divertia assim. Pelo menos imaginava que pudesse haver. Um papel sem destinatário e sem verdadeiro conteúdo! Sempre gostaria de saber o que sucederia se alguém respondesse ao convite. E se ela o fizesse? Encontraria alguém rindo-se da situação? De novo se sentiu ridícula por ponderar sequer semelhante hipótese. Afinal, talvez o papel estivesse ali há dias, há semanas… Não, isso não, estava certa que não. Ontem mesmo estivera sentada naquela cadeira e conhecia bem aquele gesto, quase vício, de entalar a mão na dobra das almofadas. E se o papel fosse realmente para ela? Olhou à volta de forma mais atenta e comprometida. Àquela hora a pastelaria estava quase vazia e só os olhinhos míopes de uma gorda decotada pareciam olhá-la com interesse.
Quando no fim do dia chegou a casa, o papel estava guardado no bolso das calças, ainda tão cuidadosamente dobrado como quando o encontrara. Não o esquecera todo o dia, embora a si mesmo assegurasse que sim. Ao debruçar-se sobre o marido em busca do beijo rotineiro, colocou-lhe a mão no ombro e fez desse gesto o compromisso de esquecer toda aquela loucura inconsequente. Aquele seria um serão como todos os outros mansos serões habituais. Ou não, melhor fazer diferente. Dar-lhe o jeito de uma comemoração ou de um ritual. Porque não cozinhar para ele? Há quanto tempo o não fazia! Substituiria a falta de talento pela devoção e faria dela uma prova de afecto, testemunho inquebrantável do apaziguamento que já sentia. Levantou-se decidida e foi completamente involuntário o gesto que lhe levou a mão ao bolso. Sentiu o papel como uma brasa queimando-lhe os dedos. Nenhuma dor, mas uma espécie de chama branda e convidativa que lhe foi subindo pelo braço e se apossou do seu corpo.
«Vou ter que sair mais logo. Uma reunião inesperada. Acho que não consigo voltar cedo». Disse aquilo mas foi como se outra pessoa o tivesse dito com a sua voz. Estranha sensação de alívio e de medo, bizarra mistura que nunca experimentara. Longe do marido, sentido o coração cavalgando desembestado, voltou a ler o papel. Quanto não daria para de novo sentir o ridículo que sentira antes. Um ridículo profundo que a levasse a desdizer-se, «Afinal a reunião foi desmarcada. Fico contigo».
Saiu tensa e apressada, evitando o olhar do marido. Verdadeira executiva a caminho de uma reunião, ar duro e determinado, sem nenhuma maquilhagem que lhe disfarçasse o cansaço. Num saco discreto mas inesperado levava uma saia mais curta e umas meias de rede. Não tinha já memória da última vez as usara. Habituada a gerir uma agenda carregada, calculou tudo com precisão. Uma passagem rápida pelo ginásio fez dela outra mulher. Descobriu com surpresa que o seu corpo guardava ainda a virtude da sedução. Eram as mesmas formas, apenas o tempo as enquistara sem que ele alguma vez o percebesse. Gostou da sensação de reencontrar a mulher que fora. O sorriso denunciava a alegria da descoberta de uma parte esquecida de si.
Entrou no bar às onze horas. Fez questão desse rigor quase maníaco que a tornara notada na empresa. Empurrava-a a vontade de acabar com tudo aquilo rapidamente, rejeitando, ao mesmo tempo, a responsabilidade de algum eventual equívoco. Se o convite era para as onze horas, ali estava ela, disposta a procurar de peito aberto quem a convidara. As cartas estavam na mesa e se havia jogo ela queria jogá-lo até ao fim. Não precisou procurar muito. Ali estava ele, numa mesa de canto, debaixo de um espelho oval emoldurado em talha dourada. Em momento algum hesitou ou teve dúvida. A forma como os olhares se cruzaram revelou que também ele percebera o acordo e que as palavras eram dispensáveis.
Amaram-se no motel mais próximo e as palavras apenas rebentaram no momento em que os dois corpos se fundiram e abrasaram. Havia em tudo aquilo uma pressa furiosa, um tesão que parecia ter ficado guardado durante anos e agora ansiava por ser consumido numa chama súbita e deslumbrante. Ficaram calados depois. O corpo do homem ofegante sobre o dela, os dedos entrelaçados de encontro às coxas tensas, que relaxavam com espasmos súbitos e incontrolados. Mais tarde saíram do motel separados, cada um voltando devagar à vida serena a que estavam habituados. Haviam de se encontrar em casa e, então sim, trocariam as palavras banais que sempre usavam para planificar o dia seguinte.

sábado, 20 de setembro de 2008

Rock Hotel

Egon Schiele


O teu corpo desenhado no lençol por sopros de luz. Centelhas dóceis, rendidas à perfeição da forma, entravam pelas frestas da persiana corrida e eram línguas de fogo viajando a uma velocidade tão assombrosa como a tua beleza. Trezentos mil quilómetros por segundo, uma tão espantosa velocidade que apagava todo o espaço. Tu e a luz negando o vazio, aliados improváveis mas irrepreensíveis. Seria por isso que enchias o quarto e o meu espanto. Posso jurar que não precisava olhar para te ver. Estavas em toda a parte. No espelho que nos reflectiu enquanto nos amávamos, na almofada a que dormiste abraçada e que agora jazia a meus pés, até mesmo na cadeira em que me sentava, sobreposta a mim, parte maior de mim. Estavas também na janela ainda fechada, transbordavas para fora do quarto, para a cidade sempre agitada que nem sequer imaginava que nós dois existíamos e nos amávamos naquele quarto de hotel a que já nos tínhamos habituado. Gosto de olhar-te assim pela manhã. Acompanhar os primeiros raios de sol assomando nas frinchas mais altas da persiana. Como são lentos esses farrapos de luz. Tantos quilómetros por segundo e tanta lentidão. Estou certo de que a luz admira o teu corpo tanto quanto eu o admiro e é por isso que nega a sua natureza e se torna lenta, percorrendo com mansidão cada centímetro da tua pele. Tantos mil quilómetros por segundo e a luz parando ali como se não houvesse tempo. E também eu fico preso na mesma teia, cúmplice do sol matinal, enredado na teia que ele estende como um véu que a pouco e pouco te vai cobrindo. A quantos quilómetros por segundo chega o orgasmo? Não falo do seu anúncio, que esse manifesta-se em sinais claros e que aprendi a ler. Aprendi o significado de cada contracção do teu rosto, do caminho que as tuas mãos percorrem, quando abandonam o meu corpo e se concentram no teu. Indícios tão claros como os alvores rosáceos pressagiando um dia de calor. Pressinto o teu orgasmo antes que tu o traduzas em palavras ou em gemidos. Talvez de tanto te amar o pressinta mesmo antes de ti. Mas do que falo não é desse caminho que o orgasmo faz das entranhas para a alma. Do modo como vem desde um lugar fundo, de um subterrâneo aberto desde a raiz do próprio tempo, deste nosso tempo de homens que a luz atravessa a trezentos mil quilómetros por segundo. Falo de outra coisa. Falo da velocidade com que ele te abala o corpo, de como te percorre toda inteira: inteiriça como um animal mergulhado no prazer e no vício. Bem sei que ele dura depois nas suas consequências, se prolonga em espasmos e convulsões, deliciosos efeitos secundários. Mas ou não há um momento preciso, exacto, condensado numa tensão de um nanosegundo? Espécie de flash viajando a quinhentos mil quilómetros por segundo, negando na sua exuberância as próprias leis da física. Falei-te nisso e tu riste como só tu sabes rir. E eu ri-me contigo, e rebolamos juntos na cama desfeita, os lençóis enrodilhados deixando ver o colchão azul, enorme e quadrado que não conhecia norte nem sul. Colchão-arena, tapete voador dos amantes, corpo-delito a que sempre voltávamos com a complacência do gerente. Hotel Dublin, local de eternas núpcias, achava eu antes mesmo de te perder para outros abraços.






A última vez que entrelaçamos os dedos. A derradeira carícia que se imprimiu em mim de forma tão profunda que ainda hoje sinto, dedo a dedo, a tua mão entre as minhas. Fiz batota, acho que fiz batota. Só eu sabia que aquela seria a despedida e pude, por isso, guardar para mim o teu calor. Que sentirás tu hoje, tantos anos passados? Serei na tua memória um esquecimento? Não sei sequer se o teu ódio por mim foi uma ferida purulenta ou uma mazela sem importância. Sobreviverei em ti como uma cicatriz? As vezes que voltei ao Hotel Dublin carregando comigo estas folhas em que escrevo como se te levasse comigo, como se tivesse sido possível ter-te transformado em palavras. O amor está na cabeça e nas palavras que dizemos. Se isto fosse uma carta, se acaso o pudesse ser, perguntar-te-ia se ainda te lembras de como acreditávamos nesta ideia tão simples e de como buscávamos palavras novas e nos enternecíamos e surpreendíamos nelas. Era um jogo, bem sei, mas não percebi que o devíamos ter guardado só para nós. Ah, a minha alma de artista apenas se alimenta do universal! Como podia eu sufocar de amor e deixar-te sufocar a ti se o mundo inteiro me esperava e te esperava. E todavia, quanto eu não daria para te ver interpretar uma peça minha. Esse prazer simples das minhas palavras na tua boca. As minhas palavras misturadas com a tua saliva, formando-se no profundo erotismo de lábios, língua e dentes movendo-se na tua boca. Teria bastado mas quem o podia saber naqueles vagos anos de entusiasmo e presunção. E depois surgiu ele. Mentira: sempre esteve ali, na sombra, esperando o momento. Janus, face luminosa de amizade disponível escondendo a outra, a paciente face do caçador que espera a fragilidade da vítima para sobre ela se abater. Estou a ser injusto? Descobriste nele qual das faces? Pode ele iluminar-te como eu te iluminei? Antes te sufocou de tal forma que nem esse sufoco imenso percebes. E no entanto devias percebê-lo. Logo tu, a mais certeira das apostas do Rock! Sobraram uns quantos cartazes desbotando entristecidos no seu gabinete-quarto-sala de exposições-antro de visitas-caverna de assombrações e de fantasmas. «Rock Hotel! Fantasmotel! Não perca, entre no Rock e sufoque!».

quinta-feira, 20 de março de 2008

O golpe

Julian Freud


Era um objecto pesado e frio, anguloso no seu vidro fosco raiado a azul. Os quatro rasgões na sua superfície tinham marcas já antigas e irremovíveis dos incontáveis cigarros que neles tinham repousado. Na base, imperceptível a um primeiro olhar, o cinzeiro apresentava uma mossa, como que um quinto rasgão, mas este irregular, sem forma definida. Vestígio de uma pancada ou queda que deixara o vidro esfacelado e cortante naquele ponto exacto.
O cinzeiro estava vazio e limpo, quase brilhando na débil luz daquele começo de manhã. Ele estendeu a mão e como se quisesse tomar-lhe o peso faz balouçar o braço direito, sentindo o vidro polido na aspereza da mão aberta. Encolheu o dedo indicador e fê-lo coincidir com o oco, sentindo aquela textura irregular em contraste com a restante superfície, que era lisa e tão polida que chegava a colar-se à sua pele quente e um pouco húmida. O oco parecia feito à medida. O seu dedo assentava naquele buraco de forma tão perfeita que parecia ter sido feito exactamente para esse efeito. Como se fosse um gatilho.
Mantendo o objecto preso entre os dedos, o homem fechou os olhos. Os lábios finos, sombreados pela barba que despontava forte, esboçaram um trejeito de sorriso. Apenas uma insinuação de felicidade, como se a sua mente tivesse sido despertada por um desejo ou uma memória. Imaginou que fora um crime hediondo e desnecessário que provocara aquela mossa no cinzeiro. Fez um esforço para visualizar o objecto manchando de sangue o chão da cozinha e imaginou-se a si mesmo agoniado, incapaz de despegar os olhos da sombra vermelha, que escorria lentamente, arrastando consigo uma mecha de cabelos loiros.
Quando voltou a abrir os olhos, o homem ergueu o cinzeiro e apontou-o ao sol que despontava no horizonte distante. Fez com que o reflexo brilhasse na parede e depois, recordando uma brincadeira que fizera muitas vezes enquanto criança, moveu aquele clarão com rapidez ao longo da parede vazia.
Levantou-se depois desajeitadamente, como se exagerasse a dificuldade desse acto tão simples. Cambaleou um pouco às primeiras passadas e acabou por tropeçar numa garrafa vazia que se escondia entre vagas peças de roupa que se espalhavam no percurso. Quando recuperou o equilíbrio dirigiu-se à cozinha, sempre agarrando o cinzeiro na mão tensa. A mulher estava encostada ao lava-loiças como se tencionasse servir-se dele, mas sem fazer qualquer movimento. Os braços nus pendiam-lhe molemente, enquanto os dedos da mão esquerda se entretinham com as pregas da toalha em que se enrolara. A cabeça estava baixa, deixando ver a nuca magra e ossuda, e os cabelos loiros caiam-lhe nos ombros numa simetria quase perfeita. Ela percebeu que o homem se aproximava mas não se virou. Foi então que sentiu a pancada seca e certeira que a matou. A segunda pancada que se ouviu naquela manhã foi a do cinzeiro caindo no chão da cozinha. Estava manchado se sangue e na mossa irregular onde o homem descansara o dedo estava agora um coágulo acinzentado a que se agarrara ainda um punhado de finos cabelos loiros.