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segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Praxe Revisitada

Edvard Munch


No ano passado escrevi sobre a praxe e agora que ela nos revisita com a exuberância costumeira, decidi voltar ao tema. Do que escrevi no ano passado - e que está aí abaixo blogado para quem tiver nisso alguma curiosidade – não retiraria nada de essencial. Assim sendo, perguntarão, porquê voltar à questão? Por duas razões fundamentais.
Em primeiro lugar por um impulso pedagógico, vício d’ofício, se quiserem. Quando os pedagogos eram um pouco menos pedabobos, costumava dizer-se que a repetição era a mãe de toda a pedagogia! Pois então aí está a primeira razão: repetir cansa, mas mesmo que efeito não tenha, alivia quem repete.
A segunda razão é de outra natureza. Prende-se com uma ideia que circula e vai fazendo caminho: «Este ano a praxe está diferente!» Para os defensores desta tese, a diferença notar-se ia numa maior brandura e tolerância e num vozeado menos parvo e grosseiro. Um novo caminho que se abre; um amanhã que canta; uma academia mais academia desponta, tímida mas segura, no meio do tumulto. Não são poucos os subscritores destas ideias, o que se calhar nem é mau, pois gente de fé é o que mais falta nos faz nos dias que vão correndo. Já vi títulos de jornal garantindo a mudança e tenho colegas que a asseveram com toda a seriedade e convicção. Até a reitoria contribuiu para o jubiloso clima quando, finalmente, se decidiu a mexer uma palha – foi só uma palhinha, é verdade, mas mexeu-a!
Para ser justo, devo reconhecer que eu próprio tenho ouvido menos urros e uivos, talvez menos palavrões e alarvidades. Ora, mais palavrão menos palavrão, o que é que isso vem a ser para as sólidas gentes do norte?! Fosse eu poeta ou intelectual metido a besta e faria a pergunta sacramental: «Não estaremos nós a tomar a nuvem por Juno?». Ou então, para gente menos versada em mitologia clássica, será que não são demasiados foguetes para tão pouca festa? Certo é que a reitoria fez peito: não tolera abusos e faz de cada homem e mulher, docente ou funcionário, impolutos vigilantes das regras (mas que regras?) que devem reger a praxe. Desconheço se ouve denúncia de abusos e, se as houve, que consequências terão. É razoável pensar que poucas ou nenhumas. Mas em verdade vos digo que esse nem é o ponto essencial.
Nada do que verdadeiramente conta mudou na praxe. A sua estética continua a ser exactamente a mesma e deve aqui ficar claro que ela é em si mesmo irreformável. Extinguir a lógica de submissão cega e acrítica que formata a praxe significaria, como é bom de ver, matar aquele ritual circense de enxovalho tal como o conhecemos. É verdade que os tempos correm favoráveis a essa estética sinistra, do mesmo modo que tempos houve em o sentido dominante era o contrário. Já se sabe, mudam-se os tempos…
A praxe é um reflexo de todos nós e do modo como aceitamos viver, mas é também uma lição e um ensinamento. Provavelmente uma lição mais poderosa e duradoura do que todas quantas nós consigamos transmitir aos nossos alunos. Uma lição que pode sintetizar-se no belo título que Fassbinder escolheu para um filme: «O Direito do Mais Forte à Liberdade». É ou não é esse o princípio fundamental para uma vida cordata e de sucesso? Aprender a obedecer… e aproveitar para mandar sempre que a ocasião se proporcione. Não importa em quem mandamos nem porque o fazemos; o que importa é o poder do mando e a vertigem de ser obedecido. Por isso a praxe não é um caso de polícia, é muito mais do que isso. E já que falei de cinema com outro filme acabo. Falo de Bergman e d’«O Ovo da Serpente», obra que nos mostra como o essencial do terrível mal que viria a ser o nazismo se mostrava já, muito anos antes, de uma forma tão mansa que quase parecia benigna. Talvez seja isso que anda por aí à solta, não só na praxe, bem entendido, mas em tantas coisas que vemos disfarçadas e escondidas pela fina membrana de um ovo em gestação.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Praxe: Modo de Usar




Confesso que me enganei e, assim sendo, este texto deve ser tomado como expressão de arrependimento, de pública e assumida auto-crítica, de reconhecimento da minha falta de argúcia para entender o óbvio. Minha culpa, minha máxima culpa! Aqui me desnudo e puno. Sem cilícios mas convertido!
Eu, pobre professor universitário, incomodado com o tumulto destes dias, que ano atrás de ano se repetem, achava a praxe uma coisa abominável. Confesso mesmo, tal era a minha convicção, que cheguei a achar possível contagiar os alunos com as minhas reservas.
- A praxe, além de profundamente idiota e bacoca, tem um sentido e uma estética fascista que devemos denunciar!
Isto mesmo achava eu e assim o transmitia, esperando que alguns me ouvissem e entendessem a evidência.
Vejo agora como estava enganado.
Que seria da Universidade sem a praxe? Que papel maior lhe podia caber que este que a praxe lhe oferece de mão-beijada? Mais do que quaisquer teorias, mais até que quaisquer ensinamentos práticos, daqueles a que os alunos sorriem por acreditarem (taditos…) que lhes abrem as portas do sucesso pessoal e profissional, mais do que tudo isso, é a praxe que faz o estudante.
A praxe é que induca, pá!!
- Ei, sua besta, faça isto ou faça aquilo – grita um “doutor” a um caloiro. E a besta obedece, pois claro. Que outra coisa se podia esperar de uma besta?!
Se nada mais houvesse, o que deste enunciado se retira chegava e sobrava. A obediência é uma virtude, e com este treino acelerado que a praxe universitária proporciona, fica bem claro o que convém ao entendimento do mundo.
«Menino, se soubesses o que custa mandar, não querias senão obedecer»!
Ora, esqueçam as máximas salazarentas. Pffff… ditador rústico e canastrão, que achava que era escrevendo semelhantes sandices nos livros da escola que educava o povo! A praxe, pá, a praxe é que induca. Mai nada!
- Minha besta! És uma besta, não és meu lindo?
- Sou sim, senhor doutor!
E o doutor, que já foi besta em anos anteriores, rejubila ufano no seu poder. «Filho és, pai serás», ensinava também a cartilha salazarista. «Besta és, besta serás», mesmo que te chamem de doutor a brincar. Aliás, mesmo que um dia te chamem doutor à séria, ou engenheiro, ou arquitecto, ou o que seja: de ser uma besta já te não livras. Fica-te no sangue, meu lindo. Ou então na alma. Na alma, é isso mesmo, na alma! O teu lugar no mundo, o teu entendimento do mundo, vai ficar grudado a ti. Como uma medalha. A praxe é a mais brilhante metáfora da vida que te espera. Ele há lá melhor pedagogia para aprender a servidão humana?!
- Teorias, sôtor?! A malta não quer cá teorias. Queremos coisas práticas, coisas para a gente usar no futuro, sei lá. Por exemplo, quando um gajo quiser um carro novo é alguma teoria que lho arranja, é? Filosofias, filosofias? O que uns tipos pensaram um dia em que lhe deu para ali! Na maior parte dos casos tipos sem sucesso, note-se. Quando me falaram no Sócrates ainda pensei… mas não, era outro gajo. Um barbudo que se matou. A malta devia aprender outras coisas, isso sim.
O sôtor ouve e cala-se e percebe como a praxe já está a fazer a nova universidade que todos desejam.
Todos?
Quando ainda pensava mal da praxe, eu estava convencido de que o problema era haver uma certa distracção no ar. As pessoas de bom senso andavam distraídas, mas de uma forma ou de outra alguém acabaria pondo mão no desatino. Talvez o ministro, pá. Ou os magníficos reitores…
Também nisto estava enganado e, na verdade, foi quando percebi o engano que se fez luz. O meu Magnífico, quando perguntado, disse:
- É autonomia, estúpido! Os alunos são autónomos. Pois se até têm fardamento e tudo. Como na tropa! É ou não é?!
Na altura achei que ele tinha dito o que melhor soava, mas que era outra coisa que lhe ia na cabeça:
- Os meninos, além de votarem e me escolherem, são nossos clientes e, como é sabido, os clientes têm sempre razão. Pois é, Pum! Não vá a defesa do consumidor meter-se ao barulho!
Foi o que pensei, mas reconheço que não era bem isso que estava em causa. Agora é que se fez luz e finalmente percebi tudo: há aqui uma questão estratégica, uma aposta no futuro!
A praxe é o amanhã que canta!
Andaram os totalitarismos tantos anos enganados, pá! Ele é lá precisa repressão para alguma coisa. Treinem-se uns palavrões misturados com encenações sem imaginação. Acrescentem-se uns burgessos a fingir de ditadores, regue-se bem com cerveja e espalhe-se criteriosamente por todo o campus.
Não é preciso mais nada!
Com diatadorzinhos e patetas está o futuro assegurado. Com disciplina a brincar se urde a disciplina a sério. E depois, com tamanha distracção, o que mais sobra é tempo, para que aqueles que em nós mandam nos vão tratando da vidinha.
Como de resto convém a quem ainda não conseguiu deixar de viver… habitualmente.