domingo, 19 de abril de 2009

Espelho meu


Velázquez


- Ouviste a campainha mas não foste capaz de te levantar.
- Fosse quem fosse, a esta hora só podia vir chatear.
- Atender à porta é daquelas coisas que os homens costumam fazer…
- Ora essa coisa dos costumes…
- Pois, bem sei, a prova é que tive que ir lá eu.
- Não tiveste…
- Não tive mas fui.
- E eram realmente chatos?
- A princípio pensei que sim.
- E no fim concluíste diferente?
- Disso podes estar certo. Eram dois rapazes.
- Ah. E que queriam eles?
- Queriam dar-nos uma notícia… enfim, uma informação.
- Notícia ou informação?
- Informação, pronto.
- E qual era a informação?
- Uma coisa estranha…
- Diz lá. Já que começaste…
- Não sei se vais querer saber…
- Preferia dormir, mas já que me acordaste…
- Queriam informar-nos que o espelho do hall reflecte pessoas nuas.
- Isso não é estranho. Reflecte tudo o que lhe passa na frente. É um espelho!
- Não é isso. Juraram que mostra nu quem esta vestido.
- Fechaste-lhes a porta na cara, claro.
- Ia fazê-lo, mas depois…
- Depois o quê?
- Depois olhei para o espelho.
- Tinhas acabado de te levantar, não devias estar lá grande coisa…
- Eles gostaram! Mas não é isso que importa. Não me vi no espelho apenas a mim. Vi-os também a eles.
- Nada mais natural: o espelho é grande.
- Nus!
- Como?!
- Estás surdo agora? Estavam nus. Os dois.
- Andaram nus aqui no prédio? Espero que o vizinho não tenha visto. Sabes como ele é…
- Se não estás a prestar atenção não digo mais nada. Eles estavam vestidos mas apareciam nus no espelho.
- Estás a brincar comigo!
- Sabes que não sou mulher para brincadeiras.
- Tá bem, imaginaste-los nus! Que fizeste?
- Não imaginei, vi!
- Então viste, se preferes assim… E após esse milagre mandaste-los embora?
- Não! Gostei de ver!
- Gostaste?
- Eram dois belos rapazes.
- E?
- E o quê?
- Que aconteceu depois?
- Não vais querer saber!
- Ora, o que pode haver pior que um homem sério ter um espelho mágico em casa?
- Fiz amor com eles.
- Queres mesmo que acredite nisso?
- Não quero nada. Já tive o que queria. Estava muito necessitada.
- Isso é alguma indirecta?
- Não podia ser mais directa. Já nem sei há quanto tempo…
- Agora estás a ser injusta. Ainda no outro dia…
- Aquela coisa viscosa que subitamente e sem aviso escorreu nas minhas pernas? É dessa vez que falas?
- Sabes que tenho andado tenso. Tantos problemas na empresa…
- Seja como for estava necessitada. Pronto.
- Mas com os dois? E ali mesmo?
- Ali não. Fomos para o canapé.
- Para o canapé? Aquele que os meus pais nos ofereceram no casamento? Como foste capaz?
- Indigna-te o canapé ou ter ido para a cama com os dois?
- Não deturpes o que eu digo!
- Acaso deturpei? É que parece que te preocupa mais um canapé partido que a honra perdida!
- Partiram o canapé?
- Vês? Descansa que não partimos nada!
- Não é isso… mas tu sabes que aquela é uma peça caríssima.
- Eu sempre achei que não ligava com a mobília.
- Espero que não tenham sujado o tecido.
- Não sujámos.
- E?
- E o quê?
- Como é que foi?
- Fantástico!
- Sim?
- Sim, e não adiantas nada em virar-me o rabo, eles já não estão aqui.
- Que queres dizer com isso?
- Excitados como estavam, se vissem esse rabinho assim alçado não escapavas!
- Parva!
- Se calhar gostavas…
- Como eram eles?
- Musculados mas nada brutos. Delicados até.
- Tudo perfeito demais, não achas?
- Não acreditas? Digo-te mais: um era branco e o outro um mulatão.
- Ah, saiu-te um sortido.
- Não foi sortido, foi sorte mesmo.
- E dizes-me tudo isso assim?
- Como queres que te diga?
- Confessa que estás a inventar.
- Não estou a inventar.
- Podes ter sonhado. O canapé é bom para sonhar. Já uma vez me aconteceu.
- És livre de pensar o que quiseres.
- Pois sou. E se te calasses talvez ainda dormisse.
- Se não te pesa nada na cabeça podes dormir…
- Não sejas vulgar!
- E porque não hei-de sê-lo? Para invulgar já basta o espelho.
- Sim, o espelho…
- A vida é cheia de surpresas. Nunca imaginei que partilhava a casa com um espelho mágico.
- Se é como dizes não nos podemos esquecer de o cobrir quando cá vier a minha querida sogra. Acho que morria se a visse nua.
-Tu quase morres de aflição quando me vês nua.
- Não comeces…
- Podíamos vendê-lo. Deve valer um dinheirão.
- Mesmo que valesse… Afinal foram os meus pais que o ofereceram.
- Ah, sim, já me esquecia. Vem junto com o canapé. Não haja dúvida que há alguma coisa que os une. Agora ainda mais.
- Tu insistes…
- Se preferes fico calada.
- Não sujaram mesmo o tecido? Nem sei se conseguirei voltar a sentar-me ali.
- Podes sempre vende-lo. Afinal faz conjunto com o espelho.
- Pois sim, mas rendia mais contigo recostada nele. «Otomana com espelho e Messalina».
- Nem eu chego a Messalina nem o canapé a otomana!
- Se continuares a esforçar-te…
- Gostavas que fosse?
- Que fosses o quê?
- Uma espécie de Messalina.
- Gostava mais que me deixasses dormir.
- Então porque não dormes?
- Talvez o faça quando te calares.
- Agora não posso, ainda falta um pouco.
- Um pouco para quê?
- Para cumprir o contrato.
- Estás a falar de quê? Eu não sei de contrato nenhum.
- O contrato entre as personagens e o autor. Temos que dizer mil palavras.
- Não sabia disso. E ainda falta muito?
- Agora já não. Podes dormir.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Pateta Alegre: variações com Sol & Dó






«O Afonso Henriques também não era, propriamente, um democrata exemplar», notou com absoluta pertinência o Poeta Alegre. Com os agudos inflamados do seu vozeirão de verdadeiro vate (69), pôs termo, desta forma, a qualquer veleidade de eventuais atrevidos, dispostos a colocar em causa a democracia em Angola e o empenhamento na sua causa por parte do Presidente Zé Dú!

Uma vez mais o insigne poeta e deputado mostrou a sua agilidade de bailarina com a pirueta do costume: levantou o mimoso pezinho dos aluviões da esquerda democrática e da ética republicana, para poisar o outro, com estrondo, na poeira ressequida do pragmatismo político. Tem insistido nesta dança-chique, sendo de enaltecer a qualidade do seu desempenho. Com uma bota no PS e um tamanco no BE, lá vai mantendo o equilíbrio, não se sabe se por ser oscilante a sua natureza ou se por não encontrar par que o agarre do jeito que almeja. Com um PS pouco dado a poesia e um BE com excesso de solistas, vai o Poeta Alegre mantendo o solilóquio enquanto pode, não faltando quem se deslumbre com a graciosidade do equilibrista.

Desta vez calhou-lhe o papel de dar lustro socialista à visita do governante angolano e como não é homem de lugares comuns, veio-lhe à ideia o nosso glorioso rei primevo. Não se lembrou o poeta de mandar imprimir um novo bilhete-postal que substituísse aquele em que se vê a cabecinha do Salazar no corpo de Afonso Henriques. Nem era coisa difícil: bastava trocar a cabeça do ditador de Santa Comba pela do estadista dos Santos e ficava a coisa resolvida. Não se alembrou, foi o que foi! Nem desse edificante boneco nem de algumas frases que a mim me ocorreram e aqui deixo à laia de alvitre para oportunidade futura.

«José Eduardo dos Santos é como Jesus: não parece saber nada de finanças e não consta que tenha biblioteca!»

«Para que Afonso Henriques fosse angolano só lhe faltou o petróleo».

«José Eduardo dos Santos é Job invertido (salvo-seja…): apesar de nada saber de finanças todas as benesses lhe caem em cima tornando-o rico como Creso».

«Mesmo sem ser Afonso Henriques, José Eduardo dos Santos vai conquistando Lisboa: depois dos bancos e da Galp só lhe falta o Terreiro do Paço».

«Se o Socialismo é vermelho e tem um punho fechado, o petróleo não tem cor a agarra-se de mão estendida».

«Quem quer amigos bons arranja-os e puxa-lhes o lustro – de preferência no hemiciclo de S. Bento».

segunda-feira, 9 de março de 2009

Do Bem e do Mal


Salvador Dali





Ouso tentar abrir o meu próprio caminho
No qual o Bem será o que me agrade
Aquilo que não quiser, indiferente,
Aquilo que odeio, o Mal. Nada mais.


Ralph Waldo Emerson



Não conheço melhores palavras que estas para consubstanciar a expressão do divino em nós. Mesmo eu, ateu na habitualidade de todos os dias, me revejo nesta afirmação do divino pela medida humana. Fácil de confundir com uma proposta niilista, erra quem assim avaliar as palavras de Emerson. No atrevimento do nosso julgamento está, afinal, o juízo divino. Implica apenas a confiança em nós próprios para ousarmos caminhar sem a tutela dos velhos guias e da sua autoridade.

Um conhecido aforismo, também emersoniano, ajuda-nos a esclarecer esta ideia: «Tal como as orações são uma doença da vontade, assim os credos são uma doença da inteligência». Talvez não possamos viver sem orações ou credos, mas convém que compreendamos a ilusão que veste umas e cobre outros. O que me toca mais profundamente, porém, é ainda outra coisa. É a certeza sem mácula de quem se arroga o poder de decidir sobre o Bem e o Mal, a Virtude e o Pecado!

Vem isto a propósito da condenação de um aborto feito a uma criança de nove anos que fora violada pelo padrasto. Talvez a idade da menina fizesse deste caso notícia mas a verdade é que algo de mais extraordinário se interpôs trazendo este infeliz acontecimento para as páginas de jornais e ecrãs de televisão. O arcebispo de Recife, ao que parece secundado pelo Vaticano, não só condenou o acto como excomungou quem o decidiu e praticou. Quando aludo ao «acto» não me refiro à violação, que essa, ao que consta, nunca foi coisa demasiado estranha às vestes eclesiais, mas ao aborto. «Defesa da vida», justificou o prelado, «atentado às leis divinas», assegurou convicto.

Do que defendeu o arcebispo, é justo dizer que vozes de burro, ainda que paramentado, não chegam ao céu. Pudesse esse desabafo sossegar-nos! É que a Igreja tem um peso social e uma importância que tornam irrelevante qualquer desabafo conciliador. É neste ponto que as palavras de Emerson nos cativam. Elas têm o brilho dessa cintilação que o leitor sempre procura naquilo que lê: quem de entre nós, buscando apenas no seu íntimo, sem a sombra de doutrinas ou pregadores, não consegue perceber o lugar do Bem e do Mal nesta história da menina brasileira? Céptico como sou, dou por mim acreditando que essa deve ser a única manifestação de divino que realmente importa: aquela que encontramos em nós próprios.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Despedida de solteiro


Garry Winograndot




Entrou no carro convencido de que aquela era a última vez que o fazia. Não lhe pesava tanto essa certeza como a dúvida acerca dos gestos adequados àquele momento irrepetível. Sentia que cada um deles devia ter um significado especial, como se fosse parte de uma cerimónia ou de um ritual, mas enredava-se inabilmente num refinamento embaraçado e artificial. Logo ele, que sempre tomara tais disposições como artifícios dispensáveis e sempre subordinara a forma ao conteúdo, percebia que naquela ocasião devia vestir a pele de um oficiante e fazer de cada gesto derradeiro um testemunho que lhe sobrevivesse. Momentos antes, quando fora buscar a noiva ao centro comercial suburbano, fora capaz de a surpreender pela desmedida cortesia. Ele próprio surpreendido, para falarmos com inteira verdade. Jamais se vira ou imaginara naquele papel: saíra do carro para lhe abrir a porta, pegara-lhe na mão com inusitada ternura esperando que se sentasse, só depois lhe beijando o nó dos dedos com lábios de veludo. Ali sentados, lado a lado, na intimidade forçada do automóvel, seguiram calados, vendo como o trânsito se adensava na aproximação do centro urbano. Além de surpreendida, ela ficara embaraçada com aquele tratamento inesperado e deu por si imaginando que propósito esconderia. Também ele, homem de contadas e certeiras palavras, se distraiu em vagos pensamentos, conferindo mentalmente se cada um dos gestos de que se servira correspondia adequadamente ao vago mas indispensável modelo de relação romântica ensinada no cinema.
Levou-a a um restaurante absurdamente caro, um daqueles lugares onde a reserva de uma mesa podia levar meses a conseguir. Restaurante da moda, que por não abdicar um milímetro da tradição que lhe dera fama, conciliava na perfeição as fortunas emergentes com aquelas que iam decaindo e das quais apenas sobrava uma certa patine de distinção. Muda, intimidada, a rapariga apenas sorria, sem entender o que fazia ali nem como pudera o seu modesto noivo levá-la àquele lugar. Simples e discreto. Sempre pensara nele desta forma, mesmo que sentisse que havia também um lado profundamente misterioso e inacessível. Demasiadas perguntas sem resposta, demasiados espaços vazios numa vida de que apenas conhecia fragmentos dispersos através de confissões breves e acidentais. Mas ela não temia o silêncio nem os mistérios. Bastava-lhe o sorriso meigo, de menino sem amparo, e a meiguice que tornava irrelevantes quaisquer dúvidas ou inquietações. Também sucedeu assim naquela noite. Como se o sorriso brando fosse suficiente por si só, a única confidência que ela lhe arrancou foi que aquela seria uma noite muito especial para ele. Ela, baixando os olhos num pudor encenado, quis saber se seria especial apenas para ele. O homem olhou à volta e demorou na resposta, parecendo ponderar cada palavra. «Também para ti vai ser uma noite especial», acabou por dizer, mas não a olhou nos olhos nem lhe pegou na mão como ela gostaria.
O homem comia sem vontade, mastigando demoradamente ínfimos pedaços com ar sereno mas distante. Ela viu naquilo uma timidez prudente mas eram outros os sentimentos que o atravessavam. Em vão procurava evitá-los e fazer-se mais presente, mas sempre aquela ideia vã e despropositada se apossava dele e o prendia. Como seria a sua vida se pudesse deixar de fazer aquilo para que estava destinado? Que formas tão diversas podia ter assumido a sua existência se outros tivessem sido os seus compromissos? Quantas vidas ficam por viver em cada decisão que se toma? Era esta a pergunta fundamental, mas nem para ela nem para as demais procurava verdadeiras respostas. Queria apenas livrar-se daquela inquietação que o consumia e que era uma forma de dúvida que não se atrevia a assumir. Indomáveis, os pensamentos voltavam sempre mais fortes e ele observava a noiva com olhos intensos, certo de que tudo seria mais fácil se não a tivesse conhecido… Quando os olhares se cruzavam parecia ainda maior, mais intenso, aquela espécie de desejo contido e sufocado. Ela via os sinais mas não os entendia e chegava até a enternecer-se com aquele sofrimento que lhe parecia pura timidez.
Aquela era a noite em que todos os comprometimentos se iriam tornar claros e irreversíveis. Os compromissos sobrepondo-se a inesperados afectos e paixões que o agarravam e ameaçavam as fundas convicções. Sabia que as escolhas estavam feitas há muito e que os desejos, mesmo os mais profundos, não podiam sequer ser confessados. Sobretudo os mais profundos. Sobrava-lhe aquela esperança inconsequente de no final de tudo se poder reencontrar com o mesmíssimo amor a que agora fugia. Desejo de transcender o tempo e as circunstâncias que determinaram as escolhas definitivas. Rasurar espaço e tempo e regressar a ela como um corpo que emerge das águas frias a que foi arremessado.
Quando o jantar se aproximou do fim, à hora em que no restaurante se multiplicavam vozes e pessoas, a sua tensão e desconforto aumentaram. A mulher não pôde deixar de o notar na indecisão das escassas palavras e no fio de suor que lhe atravessou o rosto. Generosa, inventou entusiasmo e jovialidade, convicta que dessa forma o ajudava a formular o pedido que ansiava ouvir. Logo que acabou a sobremesa ele deixou-a. Demorou tanto tempo nos lavabos que parecia até esperar que ela se cansasse e partisse sozinha. Quando regressou à mesa vinha lívido, parecendo tão cansado que se diria transportar consigo todas as penas do mundo. Pela primeira vez desde que ali tinham entrado pegou-lhe na mão. Fê-lo com a ternura habitual, mas juntou-lhe também doçura tão intensa como ela nunca experimentara. O sorriso da mulher revelava a sua alma: chegara o momento feliz por que tanto esperara. Agora sim, nenhuma dúvida de que ele pusera de lado todas as incertezas e hesitações. Raras são as vezes em que o sorriso de dois amantes se encontra em tamanha sintonia como naquele breve instante. Foi então que o homem levou a mão ao bolso e activou o engenho que trazia preso à cintura. As notícias do funesto acontecimento insistiram num macabro recorde: nunca um atentado terrorista fizera tantas vítimas inocentes naquela infeliz cidade.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Brincadeira de criança


Diego Rivera


Como sempre sucedia, entrei no quarto como num santuário. Fora ali que passara os melhores momentos da minha vida, infinitas tardes de pura felicidade, memórias que não posso nem quero apagar. Eu e o meu avô, sempre os dois, parceiros inseparáveis, companheiros de brincadeiras, cúmplices absolutos que a diferença de idade nunca colocou em causa. Como pude sobreviver àquela morte, à enorme perda que de tão esperada se tornou irreal? Nada há de que me arrependa. Cumpri a parte que me coube, e esta parte, tão dolorosa quanto feliz, não pode ser mais que conservar viva a perfeição do passado. Sei que não volta, esse passado. Não sou tolo, bem sei que em tudo o que faço pesam, em partes iguais, a ilusão e a memória. E isso que me importa? Neste quarto em que sempre me recolho, mantive prisioneiras as sombras da minha infância. Entro nele e volto ao que fui. Ao que fomos. Só que agora é um lugar apenas meu, no qual ninguém mais cabe ou virá alguma vez a caber. Um lugar onde, sempre que posso e me deixam, reencontro o meu velho companheiro de brincadeiras.
Era exactamente assim que nos sentávamos, à maneira dos índios, como garantia o meu avô, pernas cruzadas e mãos sobre os joelhos, um frente ao outro, sorrisos e olhares cruzados enquanto decidíamos o que fazer. Esta caixa em folha-de-flandres, com os desenhos de cores esbatidas pelo tempo, já estava aqui naquela altura. Claro que tive que lhe mudar o conteúdo, mas essa foi apenas uma operação indispensável para que tudo pudesse aproximar-se ao que sempre fora. Há de novo ilusão nisto que digo, bem o sei, mas que seria de mim sem ela, sem a força e o ânimo que só a fantasia me dá? Abro a caixa e faço correr pelos dedos as peças alvacentas. De cada vez que lhes toco parecem-me mais leves, como fossem secando por dentro, dessa forma lhe aprimorando a forma, talvez adequando-a à função que lhes atribuo.
Espalho a meus pés, no oleado gasto e já sem cor, as peças redondas, anguladas por espigões ratados mas ainda nítidos. Devo agora, com duas peças compridas e levemente curvas, agarrar as redondas e devolve-las à caixa que as guarda. São essas as regras: claras e precisas como sempre foi nosso hábito. Não sei que técnica usaria se fosse ainda criança, de que forma me guiariam as palavras de meu avô, mas agora colo-as as peças compridas aos dedos como se fosse dois pauzinhos de um restaurante chinês. Faço delas uma extensão dos meus dedos, dou-lhes um jeito de pinça, de forma a fazer entrar uma delas no buraco irregular das peças redondas e só quando a sinto bem presa é que a levanto e arrumo na caixa. Jogo nenhum se faz sem regras e este, criação minha em intenção do meu velho companheiro, não poderia ser diferente. Regra fundamental: não posso bulir, por pouco que seja, em peça diferente daquela que pretendo capturar. O mínimo erro nesta condição obrigar-me-ia a recomeçar tudo do início. A concentração é essencial. Concentração e cautela, como, estou certo, o meu avô me recomendaria, caso fosse outra a condição da sua participação neste jogo. Mãos firmes, gestos precisos, associados à falsa lentidão de um felino.
Gradualmente o jogo torna-se mais fácil. Conforme vou avançando e deslindando o acidental emaranhado de peças, como se desatasse os nós de uma confusa meada de lã colorida, define-se com limpidez o caminho a prosseguir. Porém, a clarificação do desenho e da tarefa cobra fatalmente o seu preço. A mão começa a suar e um torpor ingovernável ameaça fazer-me perder a concentração. As peças, rígidas pinças deformadas, colam-se aos dedos húmidos e chegam a desobedecer-me até nos mais fáceis movimentos. E depois, para lá disso, sempre me acontece o mesmo. Devia prevê-lo e evitá-lo, mas nunca consigo. Sempre deixo para o fim o mais árduo emaranhado de peças, como se à vista da meta final fizesse questão de enfrentar a enormidade de uma escarpa que importa vencer. Fecho os olhos procurando reencontrar a concentração. Sei que encontrei e venci piores desafios. Vendo bem, não é nada de mais o que me resta. Quatro peças singulares, encavalitadas umas nas outras, fundidos os ângulos agudos com os buracos que as abrem a meio. Nessa evidente metáfora que é a conjunção do côncavo com o convexo, reside a maior das dificuldades. A minha mão treme agora visivelmente no esforço de desmontar o novelo. Recuo, respiro fundo e volto a tentar, desta vez de forma ainda mais decidida, mas aconteceu o desastre que temia. Não foi preciso mais que um pequeno toque, uma coisa de nada, e todo o montículo se abateu quase sem ruído.
Que diria meu avô? Quase posso ouvi-lo, recomendando paciência e determinação. Sábios ensinamentos, esse como outros, e é com eles na mente que volto a lançar as peças redondas disposto a recomeçar o jogo. Paciência sem determinação é moleza, mas da determinação sem paciência também não resulta nada de bom. Era assim que meu avô falava, com a diferença de usar palavras antigas e sábias, palavras que não esqueci, posso jurá-lo, mas que nem sempre me ocorrem. Como agora mesmo sucede. Tampouco é isso que neste momento importa. O que a mim mesmo devo exigir é absoluta concentração. O cumprimento desta tarefa a isso obriga. Recomeço, portanto, a juntar peça atrás de peça e teria, sem dúvida, chegado ao fim, não fosse ouvir de repente a chave entrando na fechadura. É sempre desta forma que me apercebo da chegada da minha esposa, e ela, por muito amor que lhe tenha, não tem lugar neste mundo que é só meu. Sem pressa, sabendo com precisão de que tempo disponho, pego em todos os ossinhos do meu avô e arrumo-os na velha caixa de folha lacada. Só depois de me assegurar de que nada ficou fora do seu exacto lugar, é que saio do quarto, sorridente e apaixonado, para saudar a minha amada esposa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

(Ir) responsabilidade cidadã

George Grosz



Quando a crise se manifestou em toda a sua exuberância terá parecido a alguns que o mundo em que sempre tinham acreditado se desmoronava de um sopro. Chegaram a ser ouvidas com atenção solenes vozes que defendiam que estava na hora de arrepiar caminho. Era necessário, diziam, que reavaliássemos as nossas necessidades e aprendêssemos a viver de forma mais contida. Isto tinha um significado mais profundo do que à partida pode parecer. A economia dos países desenvolvidos e, ainda mais amplamente, o nosso modo de vida, assentou, sobretudo desde o pós-guerra, num modelo muito claro e fácil de entender: as necessidades são ilimitadas por definição e os recursos, que, idealmente, devem ser sempre crescentes, servem para satisfazer essas necessidades constantemente inventadas e descobertas. O princípio da obsolescência, técnica e simbólica, dos bens de consumo, tem governado esta máquina bem oleada criada pelo sistema capitalista. Para o seu funcionamento não basta, de facto, querermos sempre adquirir novos produtos, é importante, também, que os bens que já possuímos deixem de servir, seja porque se estragaram seja porque passaram de moda. Isto funcionou durante décadas, ainda que algumas crises pontuais tenham, por vezes, ameaçado o modelo.

Desde há muito que variada gente anda à espera da tal crise, aquela que não deixará pedra sobre pedra. A aparente virulência da crise que vivemos levou algumas almas a acreditar que seria este o momento há tanto aguardado e foram essas as vozes que se fizeram ouvir e que chegaram a ser escutadas. Foi sol de pouca dura. Os liberais depressa recuperam do pasmo e atordoamento em que tinham caído: o modelo, que tantas alegrias lhes tinha proporcionado, possuía, afinal, todas as condições para se regenerar. Habituados a certezas, depressa descobriram que só eles eram capazes de encontrar as boas soluções. Foram-se, por isso, chegando à boca de cena e é lá, na linha da frente, que os encontramos, sérios e reservados, como se o mundo inteiro lhes devesse os milhões que perderam não se sabe como.

Do que não há dúvida é que nos fora nacionais e internacionais é dentro do modelo que se discutem as soluções. Uma das descobertas que fizeram é bem curiosa: em vez de se discutir se estamos a consumir de uma forma absurda e excessiva deve é promover-se o consumo! E como diabo se faz isso se a malta não tem dinheiro? Fácil: o governo financia! O que importa é injectar dinheiro no sistema para que o possamos gastar, de preferência do modo mais irresponsável possível. Basta que o governo diminua os impostos ou até que entregue uma espécie de cheque às famílias. Nada de novo noutras paragens, se bem que a malta por cá chegue a estranhar essa ameaça de generosidade. Todavia, os atentos e perspicazes liberais já detectaram neste plano um problema que os aflige. É que os cidadãos, irresponsáveis como o caraças, são bem capazes de desvirtuar a medida: em vez de se irem meter no Shopping mais próximo torrando a benesse em prendas e vinho, é capaz de lhes dar para pagar dívidas ou, pior ainda, enfiarem o dinheiro debaixo do colchão, desconfiados como andam dos bancos e dos banqueiros.

Como o meu paizinho, que Deus tenha, sempre me ensinou a ajudar os outros, deixo aqui um alvitre. Espécie de ovo de Colombo para uma nova era de consumo. O governo, em vez de diminuir impostos ou dar dinheiro vivo, gratificava as famílias contribuintes com géneros! Era só aproveitar o pretexto e a embalagem natalícia. Deixo uma lista singela, sabendo que é infinito o mundo de possibilidades que assim se abre.



George Grosz



Lista de ofertas do nosso excelente governo às famílias que governa:

Meio peru
2 kg. de bacalhau (cura amarela)
Um bolo-rei (sem brinde mas com fava)
Uma dúzia de ovos (para as filhoses)
Uma couve tronchuda

Claro que as prendinhas não podem ficar esquecidas!


Havendo criancinhas na família:
Uma barbie (fadista)
Um Noddy (ambos de contrafacção, pois há que ajudar a economia clandestina)

Havendo adolescentes na família:
Um curso de formação para o desemprego (para ele)
Um jogo de bolinhas chinesas para prática de pompoarismo (para ela)

Havendo idosos:
Uma rosa (socialista) de plástico (para ela)
Um pin com o rosto garboso do nosso querido líder, eng. Sócrates (para ele)

E pronto, ficava a festa feita. Incrementava-se o consumo, evitava-se a irresponsabilidade da poupança e adiávamos o trambolhão, esse tal Armagedão que há-de vir, por mais uns tempos.

sábado, 13 de dezembro de 2008

A imaginação de Deus

Félicien Rops

Há já muitos anos que tenho esta ideia como verdade indesmentível: Deus, a existir, revelou uma gritante falta de imaginação no momento da criação! Não discuto a sua ilimitada capacidade de criação, mas por isso mesmo me parece evidente que não só poderia ter tornado a nossa vida mais divertida como lhe teria sido fácil tornar menos espinhoso o espinhoso mundo dos afectos!


Milénios e milénios passados e essa espécie de drama quotidiano foi-se tornando parte da nossa natureza. Colada à pele, temos a condenação de vivermos em permanente tensão entre a evidência do dualismo – há gajos e gajas… - e o ideal de complementaridade. Ou seja, por um lado percebemos as diferenças e até as reforçamos, mas por outro vivemos no arrebatamento da procura do amor verdadeiro, aquele capaz de conciliar as partes desunidas numa só alma redimida. Dito assim, tudo parece simples: ao capricho dos deuses que segundo os velhos mitos nos separaram, responderíamos com o achamento da metade que nos falta. Pois é, também por aqui se vê que por vezes as coisas simples se revelam bem complicadas! Porém, e este é o meu ponto, tivesse sido Deus mais ousado e estou em crer que tudo teria resultado mais fácil.

Vai um exercício de pura especulação delirante? Imaginemos então um demiurgo mais criativo que o que nos coube em sorte. Eventualmente bastaria apenas que fosse um pouco mais ébrio. O que importa para o caso é que imaginemos que ele decidia, na sua altíssima e soberana inteligência, oferecer aos seres humanos não dois mas, digamos, cinco sexos! Isso mesmo: esqueçamos o singelo mas grosseiro dualismo ♀ ♂ e atentemos nesta grelha:


SEXO .......................A......B.....C.....D.....E .............A.....B.....C.....D.....E

CONFIGURAÇÃO .........Tipo 1 – Concavo ..................Tipo 2 - Convexo

DESCRIÇÃO ............A 1...B 1...C 1...D 1...E1............A 2..B 2..C 2..D 2..E 2



Imaginemos um pouco mais. O nosso criativo demiurgo, como bebera entretanto uns copitos a mais, decidiu tornar as coisas um pouco mais complicadas. Ou estimulantes, depende da perspectiva... Assim, em primeiro lugar, achou por bem que cada ser humano nascesse provido não de um mas de três sexos - daí a expressão «três é a conta que Deus fez...». Decidiu ainda que as concavidades e convexidades não se encaixassem do modo mais óbvio e lógico. Por exemplo, o A 2 (convexo) apenas se adaptaria ao C 1 (convexo), enquanto que o C 2 apenas encaixaria, digamos, no E 1 (concavo). Confusos? Não é caso para tanto, mas em todo o caso penso que tudo ficará mais claro recorrendo a um exemplo concreto.

O Carlos Alberto e a Cátia Marisa amam-se. Pelo menos desconfiam que sim. Acreditam que se complementam de uma forma suficientemente satisfatória para serem felizes um com o outro. Se quisermos dar uma de liberais, podemos imaginar que ambos partilham uma visão desempoeirada da sexualidade, de tal forma que admitem mesmo que a relação entre ambos admite abertura (controlada) a outras experiências. OK, vou ainda mais longe: ambos possuem uma bissexualidade latente, inequivocamente prometedora de emoções fortes! E pronto, fomos longe na imaginação mas, mais coisa menos coisa, daqui não se passa.
Consideremos agora a solução alternativa. O Carlos Alberto possui os sexos A 1; B 2 e C 1. Quanto à Cátia Marisa, a natureza dotou-a com os sexos A 2; D 1 e E 2. O nosso parzinho entender-se-ia às mil maravilhas através dos sexos C 1 / A 2. Mas e o que ficava por preencher?! É que, por muito que tentassem, as concavidades e convexidades restantes não encaixariam umas com as outras. Que fazer perante tamanha aflição? É neste exacto ponto que esta visão alternativa se torna interessante!

Interessante mas previsível, reconheço. Claro, está bem de ver. Era necessário, indispensável e pacífico abrir a/s porta/s a mais gente. Como sou ruim a matemática abstenho-me de tentar calcular quanta gente mais. Basta fazer notar que cada novo amor trazia consigo uns quantos mais! Uma verdadeira comunidade de amantes! Autentica festa dos sentidos! Com a vantagem adicional, verdadeira cereja no topo do bolo, de acabar com a estrita funcionalidade reprodutiva, pois nesta ordem alternativa todos podiam engravidar e ser engravidados. Talvez existisse a dificuldade de saber quem cometera essa façanha, mas isso já é outra conversa.

Os mais pessimistas dirão que isto só exponenciava o conflito. Hereges, é o que são! Vejam bem: andaríamos todos tão ocupados a descobrir concavidades e convexidades alheias que não teríamos tempo nem disposição para zangas! É ou não é?! E que festiva religião não seríamos nós capazes de fazer para louvar tão providente demiurgo? A evidência do princípio do prazer tornaria indesmentível aquilo que alguns se empenham em negar: é o orgasmo, meninos, é o orgasmo que mais nos aproxima de Deus. Mai nada!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A troca

Henri Cartier-Bresson



Portugal declarou estar disponível para aceitar receber alguns dos prisioneiros de Guantánamo, nomeadamente parte daqueles que não vão ser julgados mas que tampouco podem regressar aos seus países por não terem garantia de segurança nesse regresso. Ora aqui está uma decisão para ninguém botar defeito! Finalmente, parece que o governo decidiu mostrar que a tradição humanista associada ao socialismo democrático não é letra completamente morta. Até eu, tão habituado a este ruim vício de dizer mal de tudo, tenho que dar o braço a torcer: desta vez os senhores do governo andaram bem.

Porém, é sempre possível ir mais longe, mesmo nas boas decisões. Desde logo, há que ter em conta que nos tempos que correm ninguém dá nada a ninguém. É por esta razão que me parece muito razoável passar da aceitação humanista para uma relação mais simétrica. Digo isto porque talvez o governo não se tenha lembrado, mas boa ideia mesmo era procedermos a uma troca de prisioneiros! Sou ou não sou um gajo de ideias?! E até dispenso os agradecimentos do governo ou uma eventual comendazita no 10 de Junho. Deixo a ideia desinteressadamente!

Proponho, por exemplo, que se trocasse o Oliveira e Costa por um perigoso barbudo do Uzbequistão; a dona Fátima Felgueiras por feroz sírio com o respectivo cinto de bombas e até mesmo, porque não, o grande Vale e Azevedo por um chinês dos pequeninos. Garanto que ficávamos a ganhar com a troca! Ganhávamos em tranquilidade e bom viver. O problema é que nós temos gente a mais para o exíguo número de prisioneiros que os americanos querem libertar. Paciência, teremos que deixar os deputados relapsos para segundas núpcias. Não, claro que não é por faltarem às votações que os quero despachar. Quero lá saber se vão ou não ao hemiciclo. Aliás o problema é esse, é ninguém lhe sentir a falta senão quando é para levantar o dedo. Tirando uma mão cheia deles, aos outros não se lhes conhece uma ideia, menos ainda uma obra. Assim, se fossem para Guantánamo, pelo menos podiam obrar por lá…

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Perder a alma e a vergonha

Luís Afonso

Este blog não tem nenhuma linha editorial. Nem quer. A ideia sempre foi a de ir andando e vendo, escrevendo de acordo com essa deambulação, que na verdade é mais mental que física. Apesar desta abertura reconheço que sinto uma certa repugnância em meter a pena em determinados assuntos. Porquê? Ora, porque quando mexemos em merda acabamos, inevitavelmente, por nos sujar com ela. Vem isto a propósito dessa tropa da finança e da governação, desse conúbio excitado, em relação ao qual é impossível dizer quem faz o papel de puta e quem o de garanhão assanhado. Vão alternando, é o que é, facto que só mostra a perfeição da parelha.

Há uns gurus que se esforçam por nos mostrar que a actual crise tem evidentes semelhanças com a que o mundo viveu no final dos anos 20, mas há também outros, tão gurus quanto os primeiros que asseguram que não é nada assim. Enfim, eles que são os gurus que se entendam, mas entre os dois momentos há uma diferença que não pode deixar de ser notada. É que em 1929 os financeiros caídos em desgraça assumiram o disparate. Houve até alguns que pularam dos altos lugares a que tinham subido para se estatelarem cá em baixo, na calçada, junto da gente anónima. É verdade que não temos por cá nenhum Empire State Building e talvez não tenhamos sequer nenhum trampolim suficientemente digno para a excelência das criaturas que nos foram governando as finanças, mas que diabo, não seja por isso, há ainda assim edifícios com altura suficiente para assegurar o sucesso do empreendimento.

Estou a brincar, claro que estou a brincar! Queria lá agora semelhante coisa! Que seria de nós sem esses abnegados cidadãos que de nós tão bem cuidam? E na verdade, não saltar para o vazio, não assumir as consequências dos actos desastrosos que cometeram, é apenas perder a alma. Nada de mais: talvez uma alma se possa comprar… afinal trata-se de gente habituada a comprar tudo. Seja como for, suicídio de honra à parte, mandaria o pudor que se mantivessem num recatado silêncio comprometido. Perder a alma é o de menos, grave mesmo é quando são exactamente os mesmos impolutos cidadãos que se colocam em bicos de pés acenando com a solução para as porcarias que eles mesmo fizeram. Neste caso não se trata já de ficar sem alma mas de perder a vergonha.

«Salve-se a banca, custe lá o que custar!» E o governo diz presente, lançando milhões sobre as frágeis instituições como se fosse um cura de aldeia lançando água benta sobre os pecadores. 450 milhões de euros para o BPP não é nada de mais. Sobretudo se tivermos presente que o fazem com a melhor das intenções: garantir que os «muitos milhares de depositantes não perdem as suas economias», disse o ministro. Veio depois a saber-se que, ao todo ao todo, os tais depositantes perfazem o astronómico número de… 3 mil. Faz lembrar aquelas crianças que quando estão a aprender a contar dizem «1 – 2 – 3 – 4 – 5 – muitos…». O ministro, que é uma espécie de criança retardada, conta «Um milhar – dois milhares – muitos milhares…». Já agora, visto que somos todos nós a pagar a conta, devíamos ter direito a saber quem são esses três mil magníficos que estamos a amparar. E, já agora, se não for pedir muito, era também bom saber quanto abichanaram eles no tempo das vacas gordas…



Vale a pena considerarmos a lógica irrebatível da argumentação. Enquanto se tratou de ganhar milhões jamais passou pela cabeça das selectas criaturas qualquer forma de redistribuição. Vivia-se o liberalismo no seu máximo esplendor:

- Quem tem unhas é que toca guitarra, e nós, que nos preparámos arduamente para ser mais inteligentes, mais capazes, mais competentes, mais informados que a humanidade em geral, porque diabo temos agora que repartir proveitos? Tratem da vidinha, façam-se espertos que nem nós. Então andou a minha mãezinha a ser enrabada em casas de mau porte para eu chegar a engenheiro e isso de nada vale? E o papá, obrigado a assaltar transeuntes no pinhal da Azambuja para me pagar o MBA? Como pode alguém imaginar que possa perder-se tão doloroso investimento - pelo menos muito a mamã se queixava? Ainda por cima em proveito de uma ralé desqualificada! Não faltava mesmo mais nada!

Quem se atreveria a rebater tão poderosos argumentos? Nada mais justo, pois claro. O problema é que logo que o cenário mudou também a retórica se fez nova. Os convictos liberais fizeram notar de imediato que assim não podia ser.

- Será então justo que sejamos nós, nós que tanto nos sacrificámos pelo bem do país, a arcar com este trambolhão dos mercados? Pode lá ser tamanha desfeita! O melhor, o mais justo e o mais adequado à difícil situação é, sem dúvida, distribuir o mal pelos dóceis lombos habituais.

É claro que já se fizeram revoluções por muito menos e aposto até que outras se farão por coisas da mesma natureza. Mas a nós sempre nos tramaram uns tais de «brandos costumes», não sei se têm ouvido falar… Mesmo isto que aqui escrevo não é mais que estéril (e histérico) desabafo, reconheço. Consigo até ver que tudo isto é bem mais simples do que parece. O problema verdadeiro, chamemos-lhe nó górdio, talvez seja apenas o de não termos verdadeiros empresários. Pois é: não temos, nunca tivemos e há demasiada gente empenhada em que nunca venhamos a ter. O que nós temos mesmo é malta especializada em fazer o mal e caramunha, em atirar a pedra e esconder a mão. Meninos que são mais liberais que o mais liberal dos liberais quando a coisa lhes convém, mas que logo estendem a mão ao pérfido Estado quando a vida lhe corre mal. Não só sem mostrarem vergonha, que essa, já o disse, há muito a perderam, mas de peito cheio de certezas: «Somos nós que sabemos como se deve fazer, portanto, arredem-se para lá e deixam-nos trabalhar». E assim vamos. Sempre cantando e rindo como tão bem nos ensinaram.

E o governo, senhores? Pois não é ele socialista? Se o é, não lhe ficaria bem pôr termo a tão desatinado regabofe? Dir-se-ia que sim, mas no que toca à alta finança e à baixa política as coisas nem sempre são o que parecem. O governo já explicou que dava um mau aspecto do caraças deixar falir um banco português. Caiam-nos os parentes na lama se tal desgraça acontecesse. Que diriam de nós os demais? Os estrangeiros, logo eles, sempre tão atentos a fraquezas desse tipo? Pela parte que me toca tendo a achar que ficamos bem pior na fotografia por sermos o país mais desigual de toda a União Europeia. Claro que isto sou eu a misturar alhos com bugalhos. Então não se vê logo que uma coisa nada tem a ver com a outra?

A possibilidade de um banco falir (como se não falissem bancos todos os dias…), isso sim, deve afligir-nos; a pobreza no meio da riqueza é uma coisita desagradável, de acordo, mas que podemos nós fazer? Vendo bem, a desigualdade social nem chega a ser um verdadeiro problema. Então não estamos todos fartos de saber que tal flagelo tem apenas a ver com a baixa produtividade? Pois é! Trabalhem mais e mais ganharão. É a velha história: a competência e o trabalho devem ser premiados.

Já sei: aí vêm os bota abaixo afirmar que a regra nem sempre é essa. Prontinhos a dizer que o senhor Loureiro, que até chegou a ser ministro, se auto-proclamou incompetente. É verdade que as falcatruas lhe passaram todinhas ao lado, mas isso que tem a ver com incompetência? Então alguém acredita que um sujeito incompetente faz fortuna em tão pouco tempo? Dizem-me aqui que sim, que é possível, que está até sempre a acontecer, mas eu cá não acredito. Bom, pelo menos posso esperar que este meu lado de angelical ingenuidade acabará por me levar à glória de Deus. Será que lá também sujarei os dedos a mexer em certos cidadãos?

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Zoo humano

Hans Bellmer


As memórias são assim mesmo: guardamos algumas ciosamente, por vezes a tão bom recato que recusamos mesmo partilhá-las com quem quer que seja, enquanto outras, perdidas sem pena, nos visitam inesperadamente e sem que alguma razão verdadeiramente válida as tenha convocado. Sucedeu isso mesmo quando arrumava uma estante e deparei com um livro que há muito esquecera, Freaks, no qual é revelada uma curiosa colecção fotográfica de «aberrações humanas». Gigantes e anões, irmãos siameses, mulheres barbudas, hermafroditas e homens com cauda, entre muitos outros exemplos de humanas criaturas - a maior parte das quais ganhou a vida exibindo-se em feiras e circos – constituem o espólio recolhido pelo negociante de arte, Akimitsu Naruyama, e mostrado em Freaks.

Este livro, inesperadamente redescoberto, significou para mim dar uma trinca na madalena proustiana, salvo seja. Graças a ele reencontrei-me com uma das primeiras imagens de estranheza e fascínio de que consigo lembrar-me. Trata-se de uma memória de tal forma desbotada que se torna impossível distinguir as fronteiras entre aquilo que de facto vi e o que terá sido posteriormente acrescentado. Na cidade de província onde vivia chegou um dia, juntamente com outras atracções de feira, o «Gigante de Moçambique». Estou certo de que foi mais por curiosidade minha que por interesse próprio que meu pai me levou à tenda onde o «fenómeno» era exibido.

Julgo que se viveria então o começo dos anos 70, época em que atracções como aquela ainda agitavam o quotidiano das cidadezinhas de província. Não esqueço que vivíamos então num país esquisito, mais esquisito ainda do que o país em que hoje vivemos, mas ainda assim, olhando a esta distância, uma exibição como aquela talvez enfermasse já de um profundo anacronismo. De facto, os freaks do meu livro tiveram a sua época. Fizeram furor no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX mas desapareceram de cena tal como o Emplastro Leão ou o óleo de fígado de bacalhau. Sobraram todas estas fotos que agora olho, enquanto procuro, nos subterrâneos da memória, alguma imagem mental do «meu» gigante moçambicano. Vício de putativo e frustrado escritor, não posso deixar de pensar nas fantásticas possibilidades narrativas contidas naquelas vidas singulares. Acho que foi por esta razão, confessadamente interesseira, que procurei saber mais sobre aquele homem desmesurado que vi pela mão de meu pai. Num outro post falarei dele, mas por agora deixarei de lado esses quase dois metros e meio que lhe deram fama e sofrimento. É outra a questão que aqui me interessa.



«Vénus hotentote»


No início do século XIX uma jovem bosquímane de nádegas salientes, apelidada de «Vénus hotentote», fez furor na Europa, sendo exibida ao público ao lado de outros «fenómenos bizarros». A particularidade anatómica que fez dela objecto de curiosidade - tanto de cientistas quanto do público anónimo - era vista como característica da sua «raça», facto que, está bem de ver, confirmava alguns dos estereótipos mais correntes acerca da sexualidade desbragada dos selvagens. Muito embora fossem muitas as características e diversas as proveniências das «peças» expostas num autêntico zoo humano planetário, pode dizer-se que uma parte importante dessa estranheza oferecida à curiosidade dos «povos civilizados» resultava do próprio processo colonial. Nativos semi-nus, pintados ou tatuados, falando línguas incompreensíveis, vivendo em palhotas e dançando seguindo o «ritmo do batuque», eram uma componente indispensável, por exemplo, em exposições coloniais - como a de Paris (1931) ou a do Porto (1934).

A chegada desses homens e mulheres às metrópoles constituía, assumidamente, uma excelente oportunidade para generalizar e «democratizar» a experiência do exótico. O povo agradecia penhorado a possibilidade de admirar as mamocas das pretinhas e até, quem sabe, a ferocidade domesticada de verdadeiros caçadores de cabeças. Bem sei que este contacto com o diferente não se circunscreveu aos nativos importados pelo colonialismo. De qualquer forma, o importante é perceber que tanto uma mulher barbuda, proveniente de uma qualquer província metropolitana, como um nativo do Império, cumpriam um papel muito semelhante. Ambos alimentaram o imaginário de várias gerações de homens e mulheres que a si mesmos se viam como "civilizados", mas, para lá disso, ambos podem ser vistos como despojos de um mundo em mudança. Um mundo que aspirava a uma apaziguadora conformação, que devia abranger tanto a disciplina do corpo como o modo de sentir, tanto a experiência da fé como a confiança numa «civilização» redentora.

O que foi que sobrou desse imaginário? Será que dispensámos definitivamente esse circo do bizarro e do monstruoso? E, se o fizemos, como podemos nós passar sem esse imaginário que tão claramente nos situa e define por relação aos que nos são estranhos? Coloco a questão de uma outra forma: se esse nosso fascínio pelo que está para lá das fronteiras do que somos tem realmente importância para a nossa definição identitária, de que forma foi substituída a exibição impudica de alteridade que encantou os nossos pais e avós? Qual o seu substituto funcional? Estou certo de que os media, pela revolução que imprimiram ao modo de ver e de evocar, são parte decisiva na resposta a essa questão. Podemos simplificar, falando de uma passagem do oral ao escrito - muito embora estejamos conscientes da insuficiência desse processo, nomeadamente se ele deixar de lado toda a espantosa multiplicação do que nos é oferecido ao olhar. Instrumentos como a fotografia, o cinema ou os videojogos, possuem a inequívoca capacidade de responder a essa fome de imaginário que hoje, tal como no passado, não dispensa da sua dieta a extravagante diferença que ao mesmo tempo nos seduz e ameaça.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

100 anos são muitos dias!



Claude Lévi-Strauss completa hoje 100 anos, pelo que fica demonstrado que não é só a realizar filmes aborrecidos que se chega a tão provecta idade. Como um blog não é um livro de efemérides nem sequer um apartado de alguma enciclopédia, não falarei aqui da figura nem propriamente do seu trabalho. Reterei apenas um aspecto (quem quiser saber mais é fácil googlear ou coisa assim...), exactamente a importância que Lévi-Strauss dedicou à diferença cultural e à sua preservação.
A sua ideia é fácil de entender mas nunca foi fácil de implementar: se quisermos entender o Homem na sua plenitude temos que o conhecer nas suas múltiplas expressões, pelo que nos devemos empenhar na compreensão das diferenças e na sua preservação. Daqui decorre uma conversa conhecida mas que nem por isso altera as práticas sociais e políticas: por cada cultura ou língua que desaparece, desaparece também uma parte daquilo que somos enquanto humanos. Pareceu-me uma boa maneira de lembrar o velho sábio: evocar este desejo de entender o outro e esta crença na nossa capacidade de o fazer. Ocorre-me também perspectivar os próximos 100 anos e neles que bom seria se, no plano estritamente individual, todos nós fizermos também um esforço para aceitar o outro tal-qual ele é. Coisa fácil? Nem tanto assim. Haveria que resistir a essa tentação de nos tomarmos como padrão e aprendermos a ver no que nos separa dos outros não uma ameaça ou um desafio mas uma oportunidade de nos enriquecermos.
Nota final: quando falo desta aceitação da diferença não estou a pensar apenas naqueles de que mais facilmente nos distinguimos - seja pela cor da pele ou origem social. Falo de algo mais amplo e omnipresente: o que nos distingue dos nossos próximos, dos companheiros no sentido próprio do termo, ou seja, aqueles com quem partilhamos o pão, mas também das pessoas com quem partilhamos o leito e a vida. É por aí, por esse desafio de proximidade feita de diferença, que o caminho deve começar.




segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Amor-humor

Martin Van Maele



Abençoado modernismo brasileiro, que não só nos deu a conhecer o impagável Macunaíma e nos deslumbrou com as telas de Tarsila do Amaral como nos legou também a fantástica sabedoria do amor contida no célebre poema de Oswald de Andrade:


Amor
Humor



Não sei se a literatura em língua portuguesa tem algum poema mais curto que este mas estou certo de que poucos se lhe igualam em assertividade e inspiração.
Prova provada de que, pelo menos neste campo, o tamanho não é realmente importante, o poema de Oswald contém todo um projecto de vida e uma inspiração de consumação existencial: fazer sorrir o nosso par! Claro que não é apenas isso, pois o amor não é uma comédia de costumes. Pode até dizer-se que o mais decisivo se encontra noutro lugar do poema - sim, eu sei que é estranho, mas mesmo num poema tão pequenino podemos encontrar recantos escondidos! Falo da dessacralização do amor, dessa arremetida contra a certeza da dor que parece prefigurar cada relação. Amar é sofrer de amor. Sofremos pela dúvida, mas se não a tivermos sofremos pela convicção de que a certeza não pode durar sempre. Podemos também sofrer pela violência da paixão muito embora não deixemos de sofrer quando essa mesma paixão nos ignora e nos passa ao lado. Afinal, talvez o sofrimento seja um alimento indispensável para a alma mas se assim é que o riso seja o digestivo para tão pesado alimento! Amor/Humor? Sem dúvida que sim! Antes isso que um rebuscado lirismo, daqueles que sempre dão mau resultado!
É mentira o que digo? Consideremos então o que diz o vate:

Amor é fogo que arde sem se ver
(Diacho, bem sabemos que o homem tinha só um olho operacional, mas ainda assim parece-me incrível que não tenha visto o que queima o olhar! «Fogo que arde sem se ver»?! Como pode alguém que amou de verdade não ter visto a sua amada em chama viva? Confesso que não entendo, mas a burrice será realmente minha?).

É ferida que dói e não se sente
(Ai não que não se sente! Gajo insensível, heim! Deve ser por estas e por outras que se criou essa ideia peregrina de que o homem apenas sente e pensa pela pila! O caraças: a gente sente e vê a ferida, mexemos até nela e como por vezes temos ainda os dedos sujos com as cinzas dos amores que nos feriram acabamos por agravar dor e ferida...).

É um contentamento descontente
(Com esta é que eu me passo de vez! «Contentamento descontente»? É este o ponto; é este o mal! Tal a demência de quem assim ama que já nem a alegria sente como alegria. Contentamento descontente não é bem ficar trombudo depois do acto, mas no mínimo é ficar seráfico e virar costas ao diabinho que nos puxa o sorriso alvar de quem se lambuzou todo de chocolate e menta e está com vontade de voltar ao pote!).

É dor que desatina sem doer
(Quem desatinaria seria eu se acaso continuasse com este exercício de olhar o poeta no seu desvario! Melhor ficar por aqui, até porque para ilustração já basta assim!).

Martin Van Maele

Num conhecido ensaio, Henri Bergson defende que "o riso não tem inimigo maior do que a emoção". Para ele, "numa sociedade de inteligências puras provavelmente deixaríamos de chorar, mas talvez continuassemos a rir; ao passo que um mundo de almas invariavelmente sensíveis, afinadas em uníssono pela vida, onde todo e qualquer acontecimento se prolongasse numa ressonância sentimental, não conheceria nem compreenderia o riso".
Se Bergson o diz quem sou eu para desdizer? Mas que sucede quando amor se conjuga com humor, como no brilhante achado de Oswald de Andrade?



Amor

Humor


Casamento espúrio, acham mesmo que é? Eu não acho. Para além de rimarem, amor e humor têm em comum o facto de só poderem ser feitos acompanhados. É claro que podemos ter prazer sozinhos e rir sem que ninguém nos acompanhe, mas mesmo nesses casos há uma dimensão evocativa que implica um outro. E depois há ainda o valor facial das palavras, a sua história e espessura. Todos nós sabemos (pelo menos assim espero...) como o amor carnal, esse tesão que nos devora e consome, se transmuta em humidade - seja ela suor, saliva ou tudo o mais. Ora bem, é ou não verdade que essa humidade tem a sua raiz em húmus, que não é senão a matriz latina da palavra humor?! E atrever-se-á alguém a declarar que o amor, na sua expressão vibrante de sexo consolador e festivo, não melhora o nosso estado de alma? Não há como negar: alegria e bom humor têm uma relação umbilical com o prazer e este, mesmo recusando tomar a parte pelo todo, tem no sexo um importante pilar.

Mas tem ainda uma outra dimensão nesse feliz casamento entre amor e humor. Já o referi e com ele finalizo: a possibilidade de dessacralizar o afecto sem que a paixão se perca. Sempre temos um problema quando falamos de amor: há um excesso de sentido para um vocabulário demasiado limitado. O amor pode ser muitas e variadas coisas e as palavras de que dispomos para o caracterizar são claramente insuficientes. Ainda que esteja longe de ser a única razão, é também por isto que os desacertos afectivos são tão inevitáveis. São esses desacertos, sejam eles pontuais ou estruturais, que fazem a nossa história afectiva e essa história, que constantemente reescrevemos, soa sempre melhor quando nos servimos do humor para a colorir. Dói menos assim e, se querem mesmo saber, eu até acho que fica mais verdadeira quando a contamos de modo a que dela possamos sorrir. Ou rir a bandeiras despregadas... depende dos casos e dos acasos.




Martin Van Maele

Apanhado a fumar!

Rick Castro


Este post marca uma novidade absoluta neste blog! OK, é verdade que pela primeira vez aparece aqui um homem nu, mas não é essa a novidade absoluta a que me refiro. Trata-se antes de uma questão técnica. Sempre, até hoje, tenho partido da escrita, sendo em função dela que a imagem se revela, surgindo, assim, como ilustração mais ou menos evocativa do que foi escrito. Desta vez segui o procedimento inverso: foi a foto que acompanha este texto e o título que Rick Castro lhe deu que motivaram estas linhas.
«Apanhado a fumar», declara o autor! Existe na foto uma evidente vontade de provocar e de se servir do humor para piscar o olho a quem observa. Porém, o que mais me interessa nesta foto é o que ela sugere acerca das ideias de transgressão e de castigo. A ambiguidade destes dois vectores é por demais evidente: a transgressão não é para levar a sério e o castigo contém em si mesmo uma forte sugestão de prazer, sendo que é nesta sugestão que está contida, verdadeiramente, a dimensão transgressiva. Tudo se reduz, portanto, a uma encenação feita a partir de um conteúdo narrativo conhecido e que o autor reescreve. Sei que esta é apenas uma interpretação entre outras possíveis, mas foi essa a leitura que conduziu o meu olhar e também é ela que orientará o meu argumento.
A provocação, pois também aqui é de uma provocação que se trata, é a de sugerir que olhemos para os afectos reais a partir desta matriz cénica. A hipótese de partida é a de que hoje em dia tende a afirmar-se um regime afectivo em que a neutralização da transgressão se faz recorrendo a uma transgressão maior. Consideremos uma transgressão banal aos convénios matrimoniais ou para-matrimoniais como é o adultério. Em torno dele existe um conjunto de narrativas conhecidas e mais ou menos cristalizadas, as quais enfatizam temas como o da traição, da destruição dos lares ou de uma distinta tolerância em função do género, entre outros. Sem dúvida que a valorização de uma sexualidade mais activa e participada obrigou a uma reformulação destas narrativas, mas ela teve, porém, um efeito ainda mais espectacular! Estou a falar da neutralização desta forma de transgressão pela exponenciação de uma transgressão maior! A multiplicação do swing (há sites que têm centenas de casais inscritos) ou a frequência, por parte do casal, de locais dedicados ao sexo - sejam eles físicos, como uma sexshop, ou virtuais, por exemplo sites com conteúdo explícito - evidenciam essa transgressão partilhada.
Esta assumpção da transgressão tem um efeito paradoxal: não só neutraliza os efeitos contidos nas narrativas acerca da infidelidade como domestica a própria transgressão. Tal como sucede na foto de Rick Castro, crime e castigo ficam restringidos a um efeito cénico, ou seja, são contidos no acto ritual a que passam a pertencer. De facto, muito embora esta transgressão domesticada se expresse de várias formas, no essencial está contida num espaço e num tempo definido, sendo essa a marca mais evidente da transformação em ritual. A dimensão cénica e performativa pode até ser mais realçada se considerarmos que muitos dos comportamentos assumidos não chegam nunca a concretizar-se. A transgressão pode, efectivamente, ser apenas um simulacro sem que por isso perca eficácia. Anunciar a disponibilidade para cometer a transgressão significa corporizar uma narrativa que contém eficácia simbólica: converte-nos em agentes de uma forma (pós) moderna de viver o amor.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Antes asno que me carregue...

Robert Mapplethorpe



Uma muito querida amiga, reflectindo sobre as agruras de infidelidade, sublinhava há uns dias a inconveniência dos amores com pessoas demasiado interessantes. Inteligente como é (note-se que, por definição, todas as minhas amigas primam pela inteligência), achou por bem caracterizar a situação a partir de um locus masculino. Um homem que ande com uma mulher muito bonita, dizia ela, tem sempre o problema de saber que inúmeros outros homens a desejam e se esse conhecimento não gera insegurança ou incerteza, alimenta, pelo menos, o receio de a perder. Julgo que não estou a desvirtuar o seu pensamento se disser que o «bonito» pode aqui ser estendido a outros atributos como o charme ou a inteligência. De qualquer forma, independentemente do factor distintivo ser a inteligência ou a beleza física, o argumento não podia ser mais claro. Ainda que sem certezas definitivas sobre a resposta ao dilema, a minha amiga ponderava se não seria preferível uma relação com alguém medianamente interessante e fiável do que com alguém verdadeiramente interessante mas mais susceptível às tentações. Cá para mim, bonitos ou feios, inteligentes ou broncos, ninguém é de ferro. Ou seja, a fiabilidade é uma variável independente, pelo que a argumentação me parece ter um efeito mais retórico que clarificador.
Foi por isso, e também porque gosto de imagens fortes, que lhe disse logo na cara: «O que tu me estás a dizer é que preferes asno que te carregue a cavalo que te derrube». Na verdade não era bem isso. Ela não queria um burro-burro nem tampouco um feio-feio, como rapidamente percebi pela sua manifestação de desagrado. É claro que eu, atreito como ando a mal-entendidos, me apressei a contemporizar. Declarei de mão no peito que nada me move contra os simpáticos asininos e menos ainda contra os feios. Depois, convencido que um pouco de erudição fica bem em qualquer conversa, evoquei Boris Vian, escritor que muito me agrada, para assegurar que jamais me passaria pela cabeça fazer do título do seu conhecido policial, Morte Aos Feios, um slogan evocativo e menos ainda um princípio de vida. Como isso não chegou para a tranquilizar, procurei mostrar-lhe que a beleza vale bem pouco e que a culpa desse baixo valor não tem sequer a ver com o sossego que nos é roubado quando o nosso par é demasiado interessante. A beleza, quando muito, alimenta o ego mas deixa o corpo à míngua, ou seja, como diria o nosso inestimável povo, «cantoria sem comedoria é gaita que não assobia». Portanto, teima de cigarra que não aprende com velhas fábulas. Percebendo no seu olhar a sombra evidente do cepticismo, fiz-lhe ver que muita e diversa gente percebera esta verdade na pele. Lembras-te do inspirado Allen Ginsberg e da pergunta que formulou no doutrinário poema América: «Quando poderei eu entrar no supermercado e comprar tudo o que preciso com a minha beleza?». Ela lembrava-se e desconfia, tal como eu, que também neste caso a beleza de nada valeu: por certo o ilustre poeta morreu sem se livrar de pagar as contas da mercearia.
Bem sei que com esta conversa me desvio do ponto essencial da conversa e da inquietação da minha amiga. O ponto fundamental é o do equilíbrio entre razão e paixão. Ela bem o sabe e por muito que queira ser possuída pela razão, há sempre um pedacinho irredutível dela mesma que lhe prega uma rasteira e a atira para os braços da paixão. É por isso que evocar um «ponto de equilíbrio» é só uma forma de falar. Digamos que é uma espécie de aspiração apaziguadora ou uma promessa de serenidade. Poder-se-á dizer que um compromisso entre o burro e o cavalo? Hummm... talvez não, posto que os hibridismos funcionam mal neste delicado campo dos afectos. A não ser que a proposta de compromisso se manifeste numa alimária mitológica: o unicórnio! Belo animal, sem dúvida - além de sugestivamente fálico!
Por tudo isto, em verdade te digo: façamos sem hesitação o caminho que nos apetece. Quanto aos trilhos que ficaram para trás, para esses nem vale a pena olhar, pois que de estátuas de sal já todos temos a nossa conta. Dizendo o mesmo de outra forma: burro, alazão ou unicórnio, que se funda montada e montador e assim, nesses preparos, que ambos percorram caminhos capazes de os encantar.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Pero… hay gobierno?


Como a confissão alivia a alma, começo por uma declaração de interesses. Eu sinto-me sempre como o conhecido anarquista espanhol que foi empurrado para o exílio mexicano pelas tropas fascistas de Franco. Figura respeitada, foi logo cercado à chegada por um bando de jornalistas nativos que lhe pediram um comentário à disponibilidade do governo mexicano para o receber. Olhando-os com genuíno espanto exclamou de pronto: «Pero, hay gobierno? Soy contra!».
Tal como para ele, também para mim a questão não é ser este ou aquele a governar. Sou contra e pronto! Isto não significa que não existam governantes ou momentos de governação que estimulem particularmente esta minha aversão a quem manda e ao próprio acto de mandar. É assim que me sinto hoje, ao pensar nos atolambados que nos calharam em sorte. Este sentimento foi despoletado por uma notícia de rodapé que vi esta tarde num jornal gratuito: o nosso inefável primeiro-ministro garantiu que até ao final do primeiro trimestre de 2009 Portugal seria o único país do mundo em que todas as crianças dos primeiros anos de escolaridade terão um computador! Bem pode o mundo inteirinho roer-se de inveja. Verdade! Hão-de os nórdicos roer as unhas até ao sabugo com inveja do nosso querido Magalhães. Fiquem lá os noruegueses com o bacalhau, os suecos com os armários e os roupeiros e os finlandeses com os telemóveis, que a nós é que ninguém pára! O primeiro país do mundo! É obra! Claro que deve dar direito a entrar no livro dos recordes. Ao lado da maior feijoada e do empregado de mesa equilibrista! No mesmo jornal gratuito (leitura que vou alternando com A Bola) li também que a filha de Katie Holmes e Tom Cruise, uma tal de Suri, está no lote das crianças mais fotografadas do mundo. Talvez isso seja uma sorte ou um azar, pouco importa, mas vocês acham que a pequenita Suri tem um Magalhães?! Nem pó! Mas se tiver sorte, pode ser que o Zé Sócrates vá dar uma daquelas suas corridas de calção e guarda pretoriana pelas ruas de Hollywood e lhe leve a mais desejada das prendas: o computador Tintim.
Juro que quando falei de «pó» não estava a fazer nenhuma insinuação maldosa, mas lá que parece que alguma coisa anda a toldar o juízo desta tropa, lá isso parece. Então não bastava já aquela manifestação de pura piroseira pacóvia quando o nosso José decidiu presentear os líderes ibero-americanos com a maquineta? Bem fez o estouvado do Hugo Chavez que logo o arremessou (sabe deus a quem) para assim se assegurar da solidez do presente. Insinua-se que o presidente Lula sambou sobre ele com grande donaire e uma fonte geralmente bem informada garantiu-me que o nosso José está a negociar com uma escola de samba a adopção do Magalhães como tema para o próximo desfile de Carnaval.
E assim vamos, cantando e rindo, esperando, como sempre esperámos, a vinda de um Salvador que faça de nós o que queremos mas não conseguimos ser. A vez agora é do Magalhães. Símbolo da mais elevada tecnologia lusitana, é ele que nos vai redimir e salvar. Salvar de quê?! Não dos políticos que temos, que a tanto não chega o brinquedo azul. Mas redimir-nos-á do nosso atraso secular e da mansidão com que nos ensinaram a viver a vida e a aceitar as injustiças sociais. Redimir-nos-á pela certa. Afinal, mesmo que falte a sopa e o pão às inocentes criancinhas, o Magalhães as consolará!

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Da selva do desejo ao contrato redentor

Aldo Palazzolo

Um post recente suscitou comentários anormalmente abundantes para a modéstia deste blog. A eles volto, ao post e aos comentários, por nenhuma razão particular, a não ser a de despejar alguma da verborreia mental que sempre se forma depois de um almoço bem regado.
Um/a leitor/a anónimo/a, certamente que motivado/a pela nobre intenção de salvar a minha pobre alma condenada, quis partilhar comigo um longa (ex)citação. Não vejo nenhuma outra razão para que alguém que presumo não conhecer, uma vez que me trata por você, me tenha remetido tão longa prosa. Um missionário, por certo, ou então a alma imaculada da madre Teresa, que foi de Calcutá e quiçá ande agora pela Net assombrando retóricas mais ou menos desbragadas. O extracto citado pareceu-me apenas medianamente interessante, mas ainda assim agradeço penhorado a desinteressada dádiva. Bem haja!
Porquê esta mediania? Desde logo porque me parece que o autor parte de alguns pressupostos errados. Admito, com todo o fair play, que esta convicção, absolutamente pessoal, possa ser apenas um efeito do pós-almoço, mas estou absolutamente seguro que nada daquilo que o senhor diz se adequa ao que escrevi no post ou àquilo em que acredito. Por exemplo: eu, que não rejeito de forma alguma a minha parte animal, jamais recorreria à bicharada para justificar o que quer que fosse. Deus me livre e guarde! A natureza oferece-nos exemplos para tudo, mesmo para aquilo que nós nem sequer imaginamos que possa existir. Podemos até pôr de lado as coisas esquisitas, como a bicha-solitária, que apesar se solitária não deixa de pôr ovos aos biliões ou a valente fêmea louva-a-deus, que parece atingir o orgasmo arrancando a cabeça ao maridão. Deixemos tais excessos e consideremos apenas alguns “primos”, com quem partilhamos mais de 90% do código genético, os gorilas e os chimpanzés. Enquanto os primeiros acham por bem dar uma queca anual e arrumar assim a situação, os chimpanzés passam basicamente o tempo todo “naquilo”, saltando para cima de tudo o que se mexa. De qual destes casos estaremos mais próximos? De nenhum, posto que não somos gorilas nem chimpanzé mas seres humanos.
Mas esta não é a única questão que o texto levanta. Um outro problema é o da pouca importância dada ao tempo histórico. Substitui a sua complexidade por uma banalidade psicologizante: as mulheres, que se tornaram livres, são agora mais acessíveis como parceiras sexuais mas ao mesmo tempo mais ameaçadoras para o homem. Podia dizer-se de outra forma: as mulheres libertadas entopem milhões de sítios e blogs, num dilúvio de pornochachada revelador de freudianos recalcamentos dos machos ameaçados!! Ora, meus amigos, a falar verdade, tudo isto é treta superficial, com a qual não vale a pena perder grande tempo – sobretudo este tempo de qualidade que é o do pós-almoço bem regado…
Vejamos mais: o autor do ensaio citado mostra-se ressentido pela forma diferente com que, no seu juízo, se cumprem ou não cumprem contratos e compromissos. Argumenta que nos esforçamos por cumpri-los ao nível comercial ou profissional mas que não há nenhum pudor em desrespeitar aqueles que dizem respeitos aos afectos. Será porque nuns se paga multa e noutros não? Nã… deve haver outras razões, mas as que o escriba revela não passam, uma vez mais, da banal psicologia da alcova. Atrevo-me a dizer que neste ponto o autor parece um daqueles malucos que quando apontamos a lua só vê o dedo! Viver em sociedade, como há já tantos anos Rousseau percebeu, é viver num regime de contrato social. São múltiplas as dimensões implicadas neste regime de contrato e a mim parece-me bem que também os afectos se regulem por este princípio, seja ele formalizado por escrito ou apenas assumido oralmente. Qual é então o problema? Onde está o dedo e onde a lua?
O problema é o mesmo que se manifesta em todos os liberalismos, sejam eles económicos, políticos ou afectivos. É um problema de falsos pressupostos, concretamente o pressuposto de que todas as partes envolvidas se equivalem, todas jogam com as mesmas cartas e todas têm o mesmo conhecimento do jogo. Não é nunca isto que acontece. O poder existe disperso por todo o tecido social, mas daí não decorre que a sua distribuição seja igual. Ao contrário, distribui-se desigualmente e essa desigualdade de base determina todo o jogo social. Perguntarão: mas a malta não pode conversar e chegar a um consenso? Claro que pode, mas isso não obsta à desigualdade das partes. É que tudo nos distingue, até mesmo no consenso: o capital social e simbólico, os marcadores de género, a capacidade de argumentação, a experiência de negociador, etc. Ou seja, para o dizer de forma clara, os contratos, tanto os que assinamos no banco como os que estabelecemos livremente com o nosso par, podem e devem ser livremente assumidos mas isso não obsta a que um eventual carácter leonino os caracterize!
É curioso como um texto que começa por censurar o abuso de exemplos da fauna para legitimar aquilo a que chama “promiscuidade” recorra depois a um grosseiro biologismo. Tudo se reduz à ideia do macho-predador e da fémea-presa. Lugares comuns, como a incapacidade do homem expor os seus sentimentos ou a dicotomia entre dama-esposa e puta-amante, são, por isso, expressão de uma retórica desconchavada, própria de uma personagem queirosiana.
Poderá então sair-se disto? Deste desconsolo que parece condenar-nos a um desentendimento mais ou menos permanente? Por acaso eu acho que sim, mas vou deixar a revelação do segredo para outra hora. Afinal, a longa mão de Baco ampara-nos mas não nos ampara para sempre. Fico à espera de outros almoços e outros eflúvios licores. Direi apenas que esse insensato desejo de vermos o outro como extensão de nós, esse pecado que nos conduz aos mais ridículos actos e desvarios, é uma espécie de monstro sombrio que guia os nossos passos e acções. É na liberdade que nos encontramos, não na fantasia da complementaridade e simetria com que constantemente nos acenam.

sábado, 8 de novembro de 2008

Da mão à boca: a honesta volúpia


Tenho por mim a firme convicção que altura nenhuma é inadequada para evocar prazeres e com eles convocar memórias de partilhas e experiências transcendentes ou reafirmar as fantasias que nos guiam. Findo o estio, chegado, ainda que de mansinho, o suave Outono, é hora de preparar o palato para novos sabores. Ou para velhos sabores redescobertos. Deixar que as sensações tácteis, visuais e gustativas da nova estação se incorporem no nosso corpo e sejam uma porta escancarada à descoberta. A essa abertura e disponibilidade para o mundo, que, falando verdade, raras vezes usamos, podemos chamar liberdade.
É justamente o principio de uma liberdade intrínseca e irrevogável o que me fascina na imagem do libertino. Existe nesta personagem, porém, uma outra categoria, não menos importante e que igualmente me encanta: a sua inteireza ou coerência. Só por ela se pode assumir o hedonismo na sua plenitude, fazendo da busca do prazer a finalidade última de toda a acção. Não é este o lugar para discutir as implicações éticas e morais desta postura, nem para discutir as modalidades de conciliação entre a busca do prazer egoísta e a preocupação pelas outras pessoas. O objectivo é mais simples e modesto: apenas falar de sensações, de sabores e também de memórias, procurando mostrar como planos analiticamente distintos se misturam e confundem. Que outra razão pode explicar que a mesma mão que acaricia e a mesma boca que beija sejam também capazes de uma honesta volúpia.
Convoco, como a maioria dos meus ilustrados leitores certamente já perceberam, a obra seminal da arte gastronómica, De Honesta Voluptate (1470), atribuída a Platine de Crémone. Eu nem acho que exista alguma volúpia desonesta, mas lá que foi um título bem encontrado, isso foi. O Alfredo Saramago usou-o como subtítulo de um curioso livrinho a que chamou Cozinha Para Homens. Recomendo a leitura aos mais ineptos ou com falta de imaginação. Só têm que procurar a secção que lhe interessa, já que o livro se divide em cozinha para o amigo, para o amante e para o marido. Nada contra a unificação desta santíssima trindade, pelo contrário, mas em todo o caso há sempre momentos em que vestimos mais uma dessas peles que as outras, pelo que a divisão que o gastrónomo propõe não é completamente descabelada.
Desta honesta volúpia que nos prende pela boca, volto à experiência dos libertinos para vincar a coerência com que se movem na procura dos prazeres, quer dizer, o modo como sabiamente misturam planos que alguns vêem separados. Leia-se Marquês de Sade ou Casanova e perceber-se-á como a alimentação assume a importância de uma verdadeira ciência afrodisíaca. Nada de espantar: é o mundo das sensações que permite a plenitude, ou, dizendo de outra forma, tudo está ligado pelo fio dos sentidos: a selecta e requintada refeição como prelúdio para o amor e este, na medida em que nele sempre comemos e somos comidos, reenvia de novo, inevitavelmente, para o prazer de boca que o antecedeu e anunciou.
Detesto conselhos e tiradas morais e sempre peço aos amigos que me açoitem quando em tal pecado incorro. Atrevo-me, porém, a declarar que se temos que sofrer de alguma coisa antes seja de licenciosidade que de acrasia. É bem mais divertido viver o desejo sem conflito do que fugir do que sabemos ser bom. Culpa dos demónios interiores em ambos os casos, já sabemos. Mas isso prova ou não que Deus, a existir, anda um bocado distraído? Como pode querer o entendimento e a harmonia entre os seres que criou se convoca demónios tão contraditórios para nos montarem guarda?!
Deixemos de lado frágeis filosofias, as únicas que cabem nestas curtas linhas, e centremo-nos no que motivou este texto: a mudança de estação, as sensações visuais e tácteis que provoca e as memórias que a nostalgia outonal sempre trás consigo. O que importa agora é sublinhar esse percurso que vai da mão à boca, procurando potenciá-lo como caminho de sedução. Acto de amor que apela à metamorfose do desejo, confundido a boca que beija com aquela que devora. Tão voraz uma quanto a outra, por obra dessa infinita magia que se chama prazer.
E para que não fique tudo na palavra inconsequente, deixo uma sugestão aos amantes. Digamos que gostaria que fosse um modesto contributo para um amor feliz. Sugestão pensada para um começo; para aquela altura em que ainda nada aconteceu mas tudo está prometido. Aquele momento cada vez mais frequente em que o apaixonado decide surpreender a amada com uma refeição confeccionada por si.




Creme de chalotas com redução de Malvasia.

Corta as chalotas (250 gr. devem chegar) em quartos e leva a alourar por breves instantes em manteiga clarificada. Refresca com um cálice de vinho da Madeira de casta Malvasia. Quando as chalotas tiverem absorvido o vinho quase todo cobre-as completamente com igual quantidade de Madeira e de um bom tinto maduro. Deixa cozer em lume estupidamente brando durante uma hora e meia a duas horas. Tens que ter o cuidado de ir vigiando e acrescentado vinho, sempre em igual quantidade de maduro e Madeira. Cerca de 15 minutos antes do final da operação deves temperar com flor de sal. Passadas as duas horas de cozedura as chalotas estarão transformadas num puré avermelhado o oloroso e nessa altura deves tirar do lume, juntar cerca de 50 gr. de uma boa manteiga (recomendo à la baratte, mas se não houver serve uma boa manteiga açoriana) e mexer bem com as varas de modo a incorporar algum ar à coisa. Finalmente o último toque: uma pitada de pimenta verde moída na altura.
Tratando-se da situação enunciada – procura da vez inaugural – recomendo que o preparado seja acompanhado de um bife do lombo (ou do lombelo, caso tenhas boas relações no talho lá da rua e este te arranje esta magnífica peça absolutamente esquecida pelos nossos supermercados). Nada de acólitos pesados no prato: dispensa a tentação da batata frita e prepara uma salada de rúcula selvagem. Afinal o objectivo é aquecer a dama e não empanturrá-la! Escusado dizer que acompanha com um bom tinto maduro. Se fores rapaz de poucas posses aconselho-te um Palmela (Dona Ermelinda, por exemplo), talvez a região onde se encontra melhor relação qualidade/preço. Se estiveres medianamente abonado podes escolher melhor. Olha, por exemplo um bairradino, o Diga? - se outra razão não houver pelo curioso nome, capaz de suscitar libidinosos jogos de palavras. Agora, se fores gajo de nota preta e a amada merecer a pena, então faz uma loucura: vê se consegues ainda encontrar o último Barca Velha! Ah, e se a coisa resultar vê se te lembras da ajuda e manda-me lá uma garrafita!
As entradas deixo ao teu critério (afinal ninguém me paga para isto…), mas não dispenses uma mousse de chocolate no final. Fantástico final para um grande começo! Abençoado Toulouse Lautrec, que sendo um grande pintor e um emérito putanheiro, ainda encontrou tempo para inventar esta bênção do palato. A que tu preparares que seja leve (substitui as gemas por umas colheres de natas); servida em pequena quantidade e que deixe na boca dela - que já anseia pela tua - um travo ligeiramente amargo (usa chocolate negro e, se necessário, “reforça-o” adicionando-lhe cacau).
Boa sorte e que os deuses gastrónomos te protejam!